Quarta-feira, Agosto 08, 2007

SUDOESTE 2007



De todos os concertos da noite de domingo sei que dificilmente esquecerei o dos The National. Desde então que trago Fake Empire a martelar-me na cabeça:
*
Stay out super late tonight picking apples, making pies
put a little something in our lemonade and take it with us
we’re half-awake in a fake empire
we´re half-awake in a fake empire

(há muito que não gostava tanto de um álbum como gosto deste Boxer).

Quarta-feira, Julho 25, 2007

"Evocações, Passagens, Atmosferas" na Gulbenkian

Abel Manta (1888 - 1992)

Fausto Zonaro (1854-1929)

São 38 pinturas do Museu Sakιp Sabancι de Istambul, numa exposição que homenageia Calouste Sarkis Gulbenkian, que nasceu em 1869 na actual Üsküdar (margem oriental do Bósforo) e morreu em Lisboa em 1955.
Gostei de todos os quadros do Fausto Zonaro (foi a revelação) e também das paisagens marítimas do Ivan Konstantinoviç Ayvazovski.
Esta pequena exposição inclui ainda 10 obras de pintores portugueses que têm em comum com os seus contemporâneos turcos expostos, o facto de também eles terem passado por Paris nesta época. Aqui (nos portugueses expostos), destaco a "Praça Camões" do Abel Manta (1964).

Segunda-feira, Julho 09, 2007

Super Bock, Super Rock

Apesar de não ter bebido uma única cerveja, dias houve em que nem jantei, foi só chegar a casa, trocar de roupa e rumar até ao Parque Tejo, foi à mesma uma semana em grande que para mim começou terça com The Magic Numbers (estudei muito ao som destas canções, foi por isso um espanto ouvi-los ao vivo e engraçado descobrir que visualmente estão completamente fora de moda: gordinhos e mal vestidos, os cabelos a precisarem de umas tesouradas, acho que o look é propositado, o que é pena), Bloc Party (com o vocalista mais carismático do festival-segundo a minha votação) e Arcade Fire (sem dúvida um dos melhores concertos, 10 músicos em palco, dez! e o público a entoar o recurso sonono mais recorrente deste grupo: oooooooooooh ); quarta não fui mas ouvi dizer que The Jesus an Mary Chain foram uma desilusão (foram lá cumprir) e que LCD SOUNDSYSTEM foi outro dos grandes concertos (uma pena ter sido vencida pelos afazeres profissionais, devia ter ido); quinta foi a última noite e não cheguei a tempo de ouvir The Gossip (o Pedro diz que perdi um bom espectáculo, a vocalista, gorda e cuspideira era coisa digna de se ver, no bom sentido, que ele, o Pedro, ficou maravilhado), cheguei a tempo de ouvir Scissor Sisters (lascivos e loucos) e depois foi dançar até mais não poder com Underworld (uma libertação). À saída distribuíram umas garrafas de água daquelas com sabor, que em circustâncias normais me saberiam a detergente mas ali (estava cheia de sede) foram como água fresca no deserto.
Sexta ainda arranjámos forças para ir ver Rodrigo Leão & Cinema Ensemble à Torre de Belém. Estava uma multidão de gente mas ninguém fazia barulho. Só eu e o Pedro é que íamos com o ritmo do festival e lá soltávamos uns Uuuuuh! e umas palmas batidas bem acima da cabeça (nomeadamente quando apareceu a Beth Gibbons e sobretudo, o Pedro Oliveira que só cantou-infelizmente- uma canção Sete Mares).
Como ouvi alguém dizer (muitas vezes e aos uivos, durante o Super Rock): "eu adooooro festivais!"

Terça-feira, Maio 29, 2007

Floriram os Jacarandás

Chega esta altura do ano e Lisboa fica diferente, cheia de sininhos côr-de-lilás. São os jacarandás em flor.
Tal como algumas mulheres, geralmente discretas, que uma noite decidem arranjar-se um bocadinho e parece que sairam da casca, assim os jacarandás: a verdade é que estiveram lá o ano inteiro mas só agora se fazem realmente notar. E parece que já nada será como dantes.
Os jacarandás estão um pouco por toda a cidade mas há zonas que impressionam como a Rua D. Carlos I, Salitre ou Belém. Apesar de ser esta a altura em que florescem com maior intensidade, a verdade é que também já os vi com flores no Inverno (devem andar baralhados com a troca de hemisfério).

Segunda-feira, Maio 28, 2007

77ª Feira do Livro de Lisboa

As noites têm estado molhadas, os livros nas bancadas cobertos por plásticos.
Mas há pechinchas, algumas até já as trouxe para casa.

Bermas de Estrada (entre Santo André e Lisboa)


Domingo, Maio 20, 2007

Climas

P.S. Krøyer, Summer Day at the South Beach of Skagen (1884)
*
Há dias em que me sinto como a menina do quadro do P.S. Kroyer (pintor dinamarquês).
Um fim-de-semana lindo (bem, começou agora a chover em Lisboa, mas pouco) e eu sem poder ir à água.

Sábado, Maio 19, 2007

Cineclube de Faro

À Flor do Mar (João César Monteiro)
*
Do tempo que vivi no Algarve (cerca de 5 anos) lembro-me, entre muitas outras coisas, dessa vez em que caminhámos ao longo da Ria Formosa, entre Cacela-Velha e Tavira. Demorou-nos uma tarde inteira e ainda tivemos de entrar pela noite morna adentro. Sinceramente, já nem me recordo como conseguimos regressar a Faro, provavelmente de comboio. Os regressos pouco importavam nessa altura e eram frequentes as noites passadas ao relento nos apeadeiros, à espera dos comboios da manhã.
Pouco tempo depois, vi no Cineclube de Faro o À Flor do Mar do João César Monteiro, filme rodado numa casa à beira-mar perto de Cacela, uma casa que juro (acho que não sonhei) ter visto nessa viagem. Os filmes com mar lá dentro (vistos nessa época) ficaram-me mais na memória, associados às nossas vivências de sol, maresias e noites mornas. Guardo com carinho todos os filmes que vi nessa sala do IPJ em Faro, através do CCF (Cineclube de Faro) pois foi nessa sala que aprendi a gostar de cinema.
Acontece que o CCF está hoje mais dinâmico que nunca, reinventando-se a cada passo. Ontem, a propósito do encerramento das comemorações do seu 50º aniversário (com direito a Bernardo Sassetti em concerto e tudo), abriu-se ao mundo o Blogue do CCF. Vou certamente passar por lá muitas vezes, entretendo esta vontade de rumar ao sul, que frequentemente me conquista.

Quinta-feira, Maio 17, 2007

Vilhelm Hammershoi (1864-1916)



Há uns tempos, quando visitei Copenhaga, descobri este pintor dinamarquês, V. Hammershoi. Há dias em que me faz bem ir à procura dos postais que trouxe na altura da DEN HIRSCHPRUNGSKE SAMLING e ficar um bocadinho a olhá-los. Há nos seus quadros qualquer coisa de Vermeer, qualquer coisa de Peter de Hooch, qualquer coisa de Edward Hopper, interiores de silêncio, luz difusa e sombras que tranquilizam.

No outro dia, alguém dizia na televisão que o seu lema de vida é "fazer novos erros todos os dias".
Pareceu-me demasiado ambicioso.

Domingo, Maio 06, 2007

Band à part (1964), Jean-Luc Godard


Odile, a rapariga deste filme, encarna esse tempo nas nossas vidas em que temos pressa de descobrir e de sentir, numa voragem acelerada que a (nos) transporta desde a inocência de nunca ter beijado um rapaz ao desgosto e cansaço que o crescimento sempre requer.

Sábado, Maio 05, 2007

Os da minha rua (2007), Ondjaki

"A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente".
"Naquele tempo então o tempo passava devagar."

Domingo, Abril 29, 2007

Indie Lisboa 2007

Termina hoje o Indie Lisboa 2007.
Tocou-me especialmente este filme holandês "Forever" de Heddy Honigmann (2006). Se o filme se resumisse a uma incursão até ao cemitério Père-Lachaise em Paris, às conversas com as pessoas que por ali andam, diária ou ocasionalmente, já seria interessante pela riqueza dos motivos que levam cada pessoa até àquele cemitério ou pelas imagens de um cemitério fotogénico. Mas o filme vai mais longe: mostra-nos a vitalidade da arte a partir da evocação emocional dos túmulos de artistas sepultados. Ficamos com vontade ler Proust ou Oscar Wilde, de admirar os quadros de Ingres ou Modigliani, de ouvir Maria Callas, Chopin, de ver filmes com Yves Montand e Simone Signoret, de visitar novamente este cemitério. Mesmo que as evidências o mostrem (um túmulo no Père-Lachaise é uma evidência), a morte não existe para quem algum dia criou uma obra de arte capaz de emocionar os vivos. E o limite é "para sempre".

käthe kollwitz (Alemanha, Abril, 2007)

Käthe Kollwitz é considerada uma das grandes artistas alemãs. Acredito que boa parte deste entusiasmo se deva aos temas que aborda, obras muito marcadas pelos efeitos da guerra, da relação entre as mães e os seus filhos (Käthe perdeu dois filhos na guerra). Gosto sobretudo das suas esculturas, em especial uma: "mutter mit zwei kindern".

Colónia, Alemanha (Abril, 2007)

As cidades são sempre mais bonitas, vistas da outra margem. Dessa outra margem percebe-se o que dá recorte à paisagem de Colónia: a Catedral , a igreja St. Martin e o rio Reno.

Catedral de Colónia (Kölner Dom)
Levou 600 anos a ficar concluída, a construção iniciou-se no séc XIII e em 1880, quando ficou terminada, era o prédio mais alto do mundo. Segundo a lenda, é no seu interior que estão sepultados os restos mortais dos Reis Magos.

O passeio do Reno
(numa tarde soalheira de domingo, é um prazer ficar por ali, a ler sobre a cidade e a olhar o rio).

Vista de uma das torres da catedral (em baixo, o Museu Ludwig, do outro lado, o Köln Triangle)

Uma das praças mais bonitas de Colónia, a Fischmarkt.




Uma das principais ruas de lojas: a Schildergasse.

Vista do outro lado do rio Reno, do alto do moderno edifício Köln Triangle Panorama.


Fischmarkt

Um David muito pós-moderno, em frente ao Museu Ludwig, perto da Catedral.

Quarta-feira, Abril 25, 2007

25 de Abril 1974


Para além do principal, o impacto histórico, a Revolução de Abril teve ainda as canções "E Depois do Adeus", "Grândola Vila Morena", os cravos na ponta das espingardas, a população emocionada nas ruas, militares em cima de chaimites Lisboa adentro (o pormenor delicioso de respeitarem os semáforos), coisas que à distância, adquirem uma ressonância mítica. Por tudo o que aconteceu nesse dia, a Revolução dos Cravos tem contornos quase literários, poderia perfeitamente ser ficção. Mas não, aconteceu mesmo e nem consigo imaginar o que seria viver sem liberdade.
Nunca estive (cronologicamente falando) tão perto de 1974 como no momento em que nasci mas quando se é criança até uma hora parece uma eternidade. Foi preciso crescer para sentir (cada vez mais) o 25 de Abril como um acontecimento próximo, quase tão marcante na minha ideia de nação como a língua que falo.
(o que será feito do menino do cartaz?)

Terça-feira, Abril 24, 2007

Universidade Umbold (Berlim, Abril/2007)


Max Liebermann

Max Liebermann, "Die Rasenbleiche", Wallraf-Richartz-Museum, Colónia (Alemanha)

Max Libermann foi uma das grandes descobertas desta viagem. Estará certamente entre os melhores pintores alemães, tendo sido também, enquanto homem, uma figura muito interessante e obstinada, capaz até de enfrentar o próprio kaiser. A partir de 1920 tornou-se presidente da Academia de Belas-Artes, lugar que perderia em 1933 devido à sua origem judaica. Morreu dois anos mais tarde, sozinho (a mulher suicidou-se para escapar aos campos de concentração).

Segunda-feira, Abril 23, 2007

Martin-Gropius-Bau (Berlim, Abril/2007)

Gerard Rondeau, "Out of Frame"

Brassai, "Statue du maréchal Ney dans le brouillard", 1932
Todos os dias passávamos à frente deste edificio (era a caminho do hotel), o Martin-Gropius-Bau e olhávamos para os cartazes anunciando a exposição do fotógrafo francês Brassai. Desde o primeiro dia ficou decidido que lhe faríamos uma visita. Assim foi e não nos arrependemos. Fiquei a saber que Brassai, para além das fotos-postal de Paris a preto-e-branco, também fez esculturas, pequenas e muito polidas, quase primitivas, algumas representando mulheres mediterrânicas, de ancas largas.
Também havia outro fotógrafo francês em exposição (este mais contemporâneo), Gerard Rondeau, tinha sobretudo fotografias de personalidades e ainda outras, muito interessantes, tiradas dentro de museus, mostrando quadros a serem tranportados, esculturas ainda envoltas nos plásticos protectores, descontextualizando as obras de arte da sua formalidade habitual, dando-lhes, nalguns casos, um carácter insólito.

Sábado, Abril 21, 2007

Caspar David Friedrich (Berlim, Abril/2007)

Mulher à Janela (Alte Nationalgalerie, Berlim)
Este é talvez o quadro do Friedrich que mais gosto e um bom exemplo de pintura romântica alemã. Uma mulher de costas (distanciada dos outros, só), à janela (dá sempre aquele efeito de distância/proximidade com o desconhecido), procurando na natureza expressão para as suas emoções mais pessoais.

Reinhold Begas (Berlim, Abril/2007)


Aqui está mais uma escultura do Reinhold Begas (está na Alte Nationalgalerie). Representa Psique a ser consolada por Pã. Ao vivo é bem mais impressionante, sente-se verdadeiramente o contrastre entre as duas figuras: homem/mulher, fragilidade/dureza, juventude/maturidade.
Parece que conseguimos ouvir Pã dizer a Psique: "Então miúda, o Cupido não merece toda essa tristeza..."

Rathausvorplatz (Berlim, Abril/ 2007)

Fonte de Neptuno com a Rotes Rathaus (Câmara Municipal Vermelha), ao fundo.
Fonte de Neptuno com a Marienkirche ao fundo.
No centro desta praça ergue-se a Fonte de Neptuno, obra de um escultor que fiquei a conhecer (há esculturas dele na Alte Nationalgalerie): Reinhold Begas. A fonte é admirável pelo pormenor das figuras que rodeiam Neptuno, caranguejos, peixes e quatro deusas que representam os maiores rios da Alemanha.

Porta de Brandeburgo (Berlim/2007)



Qualquer visita a Berlim implica uma passagem pela Brandenburger Tor, encimada pela conhecida escultura Quadriga. Os brasileiros chamam-lhe Portão de Brandeburgo ... é de facto mais um portão do que uma simples porta.

As ruas das lojas (Berlim, Abril/ 2007)

No lado Ocidental, a rua de compras mais animada é a Kurfürstendamn, mais conhecida como Ku´damm. É lá que estão os armazéns Kadewe. Gostei de saber que esta larga avenida foi rasgada no sítio de um antigo caminho para a floresta de Grunewald (Floresta Verde).


Na longuíssima Friedrichstrasse ficam os Quartier 205, 206 e 207, um conjunto de galerias com lojas de luxo (na maioria), ligados por uma passagem subterrânea. Também é nesta rua que fica o Checkpoint Charlie, o único ponto de passagem (entre 1961 e 1990) para estrangeiros entre Berlim Leste e Berlim Ocidental. Agora estão lá uns militares americanos com os quais é possível posar para uma foto a um euro (pena que só descobri no final ...).

Gendarmenmarkt (Berlim,Abril/2007)


Esta é uma praça muito bonita, bem perto da movimentada rua Friedrichstrasse. De um lado, ergue-se a Catedral Francesa, do outro, a Catedral Alemã, ao centro, a Konzerthaus, um edifício neoclássico do mais famoso arquitecto berlinense dessa época: Karl F. Schinkel. E depois há esplanadas, gente a apanhar sol, árvores nas partes laterais e a estátua do poeta Schiller, muito branquinha no meio da praça.

Kulturforum (Berlim,Abril/2007)





O contraponto à Ilha dos Museus (parte Leste) no lado Ocidental, é o Kulturforum. Lá encontrámos a Philharmonie (sede de uma das mais célebres orquestras da Europa, a Filarmónica de Berlim), a Gemäldegalerie e a Neue Nationalgalerie. Neste espaço, vivem-se experiências sensoriais únicas. Lá encontrei quadros que me emocionaram e não esquecerei tão cedo a experiência que foi assistir a um concerto na Philharmonie.

Ilha dos Museus (Berlim, Abril/2007)

O Bodemuseum com a Fernsehturm (torre da televisão) ao fundo. A torre vê-se de quase todo o lado em Berlim, é quase um farol, os berlinenses chamam-lhe Telespargel ou palito (a malta põe alcunhas a grande parte dos edifícios marcantes da cidade) . Continua a ser a estrutura mais alta da cidade embora tenha sido construída em 1969.





Em frente à Alte National Galerie estavam uns músicos. Ao lado deste, na foto, estava um outro que conseguia extrair música a partir da vibração dos dedos molhados nos bordos de copos de vários tamanhos. Fiquei vidrada a pensar no talento dos alemães para a música.



Foi nesta ilha que nasceu Berlim, nos começos do séc XIII. Aqui encontramos a Berliner Dom (catedral de Berlim) e uma das maiores concentrações de museus que tenho visto, entre os quais o Bodemuseum, o AltesMuseum, o Pergamonmuseum e a fantástica Alte Nationalgalerie.

Maçãs (Berlim, Abril/ 2007)

Comprar maçãs em Berlim não é tarefa simples, a variedade é inacreditável.

Memoriais (Berlim, Abril/2007)




A memória dos judeus mortos durante o Holocausto é evocada um pouco por toda a cidade. Há sítios, como a Grosse Hamburger Strasse (uma das principais ruas do antigo bairro judeu de Berlim) onde é inevitável a sensação de "frio na barriga".

Domingo, Abril 15, 2007

Charlottenburg (Berlim, Abril/2007)


Charlottenburg é uma das zonas mais encantadoras de Berlim, com os seus relvados, árvores e um lago. Era originalmente o retiro de Verão da rainha Sophie Charlotte e o complexo conseguiu sobreviver desde o séc XVIII (coisa rara numa cidade como Berlim). Havia muita gente a passear-se por ali (era fim-de-semana).

Árvores (Berlim, Abril/2007)

(árvores no Tiergarten, o pulmão de Berlim)


O meu olhar andava habituado às paisagens com pinheiros e eucaliptos. Em Berlim, boa parte das árvores são tílias, bordos, áceres ou plátanos. Nesta altura do ano, algumas destas árvores já começavam a ter folhas e flores, outras ainda estavam muito despidas e invernosas.


(há muitas árvores e um lago com patos em Charlottenburg)


(a bucólica Bebelplatz)



(estas árvores quase dão vontade de viver nestes prédios de muitos andares ao melhor estilo soviético)

Karl-Marx-Allee (Berlim, Abril/2007)





Demora-se bem mais de uma hora a atravessar esta monumental avenida, a mítica Karl-Marx-Allee (chamada Stalinallee até 1961), a primeira "avenida socialista" da RDA. No meio daquela arquitectura estilo "bolo de casamento" foi bom encontrar oásis como o Café Moscovo ou o fantástico Kino International.

Siegessäule (Berlim, Abril/2007)



A Siegessäule (coluna da Vitória) ergue-se numa rotunda (Grosser Stern) onde confluem cinco grandes estradas, em pleno coração do parque Tiergarten. Vistas lá de cima, as árvores do parque pareciam pompons.

Sábado, Abril 14, 2007

Ruínas (Berlim, Abril-2007)

Nem tudo em Berlim foi reconstruído. Há ruínas que ficaram, propositadamente, para que ninguém se esqueça. É o caso da Igreja da Memória (Kaiser-Wilhelm-Gedächtnis-Kirche), destruída nos bombardeamentos de 1943 e assim deixada. Ao lado do que resta da antiga igreja, foi contruída uma nova igreja octogonal, em vidro azul, com uma torre sineira separada. Fica localizada na Breitscheidplatz, uma animada praça, perto da Ku´dam, uma espécie de centro da antiga Berlim Ocidental. A foto em cima foi tirada sábado passado, do 22º andar do Europa-Center, e lá em baixo parecia haver uma confusão de formigas às compras.
Outros vestígios do passado são os pedaços de muro que ainda vamos encontrando um pouco por toda a cidade. O maior troço está em East Side Galery mas também no sítio onde agora funciona a exposição "Topographie des Terrors" podemos encontrar um troço com alguma dimensão. Neste sítio, em NiederKirchner Strasse foram erigidas algumas das instituições mais temidas do Terceiro Reich como o quartel-general da Gestapo ou o Serviço de Segurança das SS. Na foto em cima, por detrás do muro, vemos um desses edifícios, curiosamente é aí que actualmentes estão instalados os serviços de Finanças (ora aí está um edifício que não se livra da má fama).


A fachada em ruínas é tudo o que resta da outrora enorme e imponente Estação Central de Caminhos-de-Ferro de Berlim.


É fácil encontrar, nas paredes dos edifícios que sobreviveram, as marcas da guerra. É o caso do edifício em cima, localizado na Grosse Hambuger Strasse, uma rua importante na história dos judeus em Berlim.

Ampelmännchen

Os berlinenses têm especial simpatia por este homenzinho do semáforo, outrora utilizado apenas no lado leste. A sua utilização generalizou-se em toda a cidade, tendo inclusive, contribuido para a diminuição dos acidentes com peões. Uma simpatia que também está a ser utilizada de forma proveitosa no turismo pois o Ampelmännchen passou a ser visto também em canecas, camisolas, bolsas e bijuterias, disponíveis em qualquer posto turístico. Há até quem já tenha patenteado uma mulher semáforo, a Ampelmädchen.

Metro (Berlim, Abril/2007)

Metro-Alexanderplatz
Aqui passa a linha U2 que por sua vez também passa pelo Zoo de Berlim (e assim se inspiraram os U2). Os transportes em Berlim funcionam muito bem, a rede de autocarros é tão ou mais eficiente que a do metro e durante o dia nunca se espera mais de 10-15 minutos por um autocarro. Aqui sente-se o rigor germânico a funcionar. Mas nem tudo são rosas: no meio de tanta monumentalidade (avenidas longas e largas), a falta de passadeiras para os peões obriga-nos a dar grandes voltas ou a aumentar o ritmo cardíaco enquanto se atravessam estradas "à maluca". Depois, não é só com os carros que temos de ter cuidado, naquela planura, abundam rápidos ciclistas. Sabe bem, por isso, atravessar com ajuda dos típicos homenzinhos dos semáforos, outrora apenas utilizados no lado leste, os carinhosamente chamados Ampelmännchen, um dos poucos símbolos da antiga Alemanha Oriental a ser bem aceite em toda capital.

Nova Arquitectura (Berlim, Abril-2007)



O Reichstag é sede do parlamento alemão desde Abril de 1999 e é provavelmente o parlamento mais visitado no mundo, graças à sua reluzente cúpula de vidro que se ergue sobre a sala de plenários, obra do arquitecto britânico Norman Foster. Este edifício esteve no centro de grandes acontecimentos da história alemã e é um dos símbolos da sua reunificação. Para documentar a sua importância, estão expostas uma série de fotografias de várias épocas, inclusive uma que mostra todo o edifício (na altura, ainda sem a actual cúpula) totalmente embrulhado pelo artista búlgaro Christo. À volta do Reichstag, erguem-se outros edifícios vanguardistas, sedes do poder político alemão como a enorme residência oficial do chanceler alemão (uma bela casita, com direito a vista para o rio Spree e tudo).




Fotos do Regierungsviertel que é como quem diz, quarteirão do governo, junto ao Reichstag .


Por detrás do Deutsches Historiches Museum (Museu de História Alemã) situado em Under den Linden fica o edifício I M Pei Bau, uma ampliação deste museu e que é obra do modernista chinês I.M. Pei.

Este edifício até passaria despercebido não fosse a sua famosa vela de metal que lhe dá uma silhueta inconfundível.


O projecto urbano da Potsdamer Platz está dividido em 3 grandes secções que reuniram uma equipa internacional de famosos arquitectos: DaimlerCity (primeiro dos 3, terminado em 1998); o famoso Sony Center cuja praça central é coberta por uma espectacular clarabóia de vidro (é neste complexo que está instalada a Cinemateca local, o Filmmuseum com o seu agradável café Billy Wilder) e o Beisheim Center.

É em redor da Potsdamer Platz que se erguem os mais impressionantes edifícios, numa reinterpretação desta histórica praça que foi totalmente devastada durante a II Guerra e mais tarde, dividida ao meio pelo muro.


Cone de luz da autoria de Jean Nouvel, no centro do edifício das Galerias Lafayette, Frierichstrasse.
*

A II Guerra Mundial está muito próxima e Berlim é ainda uma cidade em obras, com as gruas a marcarem a paisagem. Sobre os escombros, erguem-se edifícios fantásticos, merecendo a assinatura dos melhores arquitectos da actualidade.

Ursos em Berlim (Abril-2007)
















O urso é o símbolo de Berlim e a cidade está cheia deles, no sentido denotativo. Não é a toa que em vez dos Óscares, o Festival de Cinema de Berlim premeia com Ursos de Ouro, Prata e Bronze. Aliás, o entusiasmo dos berlinenses pelos ursos é mesmo sincero a julgar pela polémica que se instalou por estes dias em torno de um urso polar bébé que nasceu no Zoo de Berlim. Knut nasceu em Dezembro do ano passado e foi rejeitado pela mãe tendo sido criado por tratadores, caso contrário já teria morrido. Alguns activistas foram da opinião que o ursinho deveria ser abatido, opinião que acabaria por ser contrariada pelo próprio Zoo. Resultado: as visitas ao Zoo de Berlim aumentaram, já foram vendidos mais de 2,4 mil ursinhos de peluche Knut e as acções da empresa Zoologischer Garten Berlin AG (Jardim Zoológico de Berlim S/A) dispararam.
Nos famosos armazéns Kadewe (abreviatura de Kaufhaus des Westerns, um dos maiores templos de consumo europeus, equiparável apenas ao Harrod´s de Londres ou às galerias Lafayette de Paris) encontrámos aquela que será provavemente uma das maiores concentrações de ursos de peluche no mundo, com destaque para os da histórica marca alemã "Steiff".

Quarta-feira, Março 28, 2007

O centro do meu mundo








Num dos seus romances ou crónicas, já não sei bem, António Lobo Antunes escreve que o centro do seu mundo é a cama antiga dos pais, na casa de Benfica. No JL de 17/Janeiro/07, esta ideia de centro do mundo que tanto me impressionou, volta a aparecer, numa Autobiografia de Francisco José Viegas: "O Pocinho é, ainda hoje, o centro do meu mundo, nesse retrato composto pelo rio, pelo vale rochoso e árido, pelo Vale Meão, pelas vinhas, pelo pequeno fio de choupos que acompanha as suas margens, pelas escarpas que sobem para Santo Amaro, para a Lousa (mais ao longe) e pelos amendoais abandonados que vão até Cedovim, onde também vivi."
Partilho com estes dois escritores esta necessidade referencial porque aquilo que sou, vive da memória de lugares. Não são lugares deslumbrantes mas também não são feios de todo. São lugares que visito amiúde porque são o centro do meu mundo (alguns estão nas foto acima).

Sábado, Março 24, 2007

"The Painted Veil" de John Curran


Todas as vidas têm um sentido.

Domingo, Março 11, 2007

"A Valquíria" de Wagner no S. Carlos


Graham Vick voltou a Lisboa para encenar a segunda parte da tetralogia "O Anel do Nibelungo" de Wagner. (em Maio encenou "O Ouro do Reno", agora foi a vez de "A Valquíria"). Mais uma vez, o S. Carlos foi transformado numa espécie de ovo, com o palco a ocupar o espaço da plateia e o público muito próximo do elenco.
O S. Carlos teve a excelente ideia de instalar um ecrã gigante na fachada onde transmitiu em directo o espectáculo, à borla. Grande parte do público desta assistência (onde me incluo) teve de ficar sentado no chão. Mas valeu a pena, as dores nas costas até ajudaram a trazer mais emoção à cena final, a cena em que o deus Wotan condena a sua filha favorita, a valquíra Brunhilde, por esta lhe ter desobedecido, a transformar-se numa simples mortal, adormecida para sempre num rochedo protegido por chamas. O que é revoltante é sabermos que Brunhilde desobedeceu a Wotan por amor : "seguiste feliz, o poder do amor; segue, pois agora, aquele a quem terás de amar."
E para não sairmos todos de lá a pensar que ver aquilo ali ou em DVD seria a mesma coisa, no final do espectáculo, todo o elenco (Graham Vick incluído) veio cumprimentar o público do largo de S. Carlos. A sensação foi como se finalmente o meu sonho de infância se tivesse concretizado: as personagens da televisão sairam todas cá para fora, no final do programa.

CCB - "Dido & Aeneas" de Henry Purcell


Foi no passado dia 07 de Março, no Grande Auditório do CCB que esta encenação "muito à frente" de Sasha Waltz subiu ao palco, conciliando canto, música e dança. Acrescentaria também (e sobretudo) pintura pois à medida que fui assistindo, ia pensando cada vez com mais certezas que esta ópera/dança não seria possível sem ter atrás de si, séculos de aprendizagem artística. Esta encenação deve muito à pintura, em especial à pintura barroca. Os movimentos eram sempre aquáticos (mesmo quando fora da piscina instalada no início do espectáculo) numa delicadeza de gestos muito própria da pintura.

CCB - Cândida Höfer

Em 2005, o CCB convidou a prestigiada fotógrafa alemã Candida Höfer a fotografar vários espaços interiores de monumentos, públicos e privados, em Portugal. Dessa visita, resultou esta exposição, ao todo são 83 fotografias inéditas, penduradas nas paredes do CCB como se fossem grandes janelas abertas para o interior dos espaços onde apenas sentíamos os vestígios de pessoas. No final, parecia que me tinha fartado de passear (o grande formato das fotografias ajuda à sensação de presença), encantada com sítios onde quero definitivamente voltar e outros onde nunca estive (como a Sociedade de Geografia) e que quero conhecer, logo que a oportunidade surja.

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007


Conhecemos pessoas, convivemos com elas diariamente, mais horas do que com a nossa família. Percorremos as mesmas ruas, todos os dias, os mesmos passeios, os mesmos carros nas bermas, os mesmos donos a passearem os cães, os mesmos putos a caminho da escola, a mesma senhora que vem com o saco do pão, o mesmo rapaz que abre a loja, o mesmo velhote à janela. E de repente, dá-se o corte abrupto, sete anos depois. Dói um bocadinho. Sentimo-nos perdidos, sem referências.
Hoje a minha vida tomou um caminho diferente. Conheci hoje pessoas que nunca tinha visto antes e que vou passar a ver diariamente, para trás ficam outras que dificilmente voltarei a ver. É a vida a obrigar-nos a mudar. Dizem-nos que é para melhor. Nós acreditamos.

Baixa lisboeta, sábado à tarde








Há alturas em que pensamos mais do que noutras, em que ansiamos por momentos de solidão onde possamos estar finalmente livres para ... pensar. Sem nada distrativo que nos impeça de dedicarmos todo o nosso ser a essa absorvente actividade. Como no último filme de Sofia Coppola em que Maria Antonieta pede permissão ao rei para se retirar e vai, em passinhos apressados e saltitantes, através dos amplos corredores de Versalhes, direita ao seu quarto onde se lança sobre a cama, finalmente livre para pensar (só este pequeno momento já faz o filme valer a pena).
Mas às vezes não é dos quartos que precisamos, é das ruas. Sábado passado, os meus pensamentos entardeceram com as ruas da baixa de Lisboa.

Sábado, Fevereiro 10, 2007

Tabu: A Story of the South Seas, de Murnau (1931)



Tabu é um filme belo. A preto e branco, mudo, filmado no Tahiti, utilizando os nativos como actores e ainda assim um filme belo, um filme para não esquecer, sobretudo a sequência final.
Matahi e Reri, dois nativos de uma ilha no Pacífico Sul apaixonam-se. É um amor proibido pois a rapariga, Reri foi escolhida para ser a virgem tabu, nenhum homem lhe poderá tocar e quebrar esta tradição significa morte. Contra tudo o que seria previsível, vemos Matahi enfrentar, com sucesso, tanto as forças da natureza como os tabus, entusiasmando-nos com esta secular visão ocidental de que o homem, através do amor, tudo vence, mesmo os deuses. Matahi é o homem excepcional, é o Gama dos Lusíadas, o Ulisses da Odisseia, o Aquiles da Ilíada. Mas é no final inesquecível que Murnau nos mostra, com maior elevação, a humanidade de Matahi quando este enfrenta a única coisa que o homem não consegue vencer: a morte. Nunca um filme me mostrou de forma tão clara o desespero, tal como o entendo, em cada braçada penosa de Matahi, o cansaço que o afastava do barco que fugia, veloz, levando-lhe para longe a mulher proibida e a sua felicidade. Há ainda um momento em que quase acreditamos que Matahi conseguirá: o instante em que num esforço sobrehumano, consegue agarrar uma corda solta no barco. Segue-se o plano revoltante de uma faca que a corta, deixando Matahi para trás, sem esperança, até que o vemos desaparecer na escuridão do mar, afogado. Mas apenas porque a morte fez batota, apenas por isso. Tabu ajuda-nos a entender a esperança e a coragem mas também a associar o quase ao desespero e à desistência.
"Um pouco mais de sol - eu era brasa/ Um pouco mais de azul - eu era além. /Para atingir, faltou-me um golpe de asa... /Se ao menos eu permanecesse aquém..."

O Velho e o Mar

"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamnete salao,o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro velhos sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota."
*
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar (tradução de Jorge de Sena)

Terça-feira, Janeiro 30, 2007

Príncipe Real


Este "cedro-do-buçaco" é uma das minhas árvores favoritas de Lisboa. Fica no Jardim do Príncipe Real e tenho a sorte de poder passar sob a sua copa praticamente todos os dias.
Lembra uma casa, embora sem janelas, paredes ou portas. Ainda assim uma casa, daquelas que inventávamos quando éramos crianças.

Sábado, Janeiro 27, 2007

Fiama Hasse Pais Brandão (1398-2007)


Este blogue qualquer dia, mais parece um obituário de poetas. Primeiro, Cesariny, agora Fiama.
Acontece que neste Natal tive a alegria de receber a Obra Breve, poesia reunida de Fiama Hasse Pais Brandão, numa grossa e bonita edição da Assírio e Alvim. Ainda não tive tempo para a desbravar, mas aqui fica um poema do qual gostei (em jeito de homenagem):
*
Anti-Poética
*
Jamais uma paisagem
pode integralmente preencher o espaço ou
+++++++++++++++++ coração real,
jamais me alimentei de fumos como esses
da outra margem, jamais me basta ver e
+++++++++++++ rever. Sobretudo
depois de percorrer a Ibéria atenta aos montes
Hermínios, as Astúrias, a esse Ebro. Quem
assim vive sabe que morrerá como quem
em consciência dispõe a ordem e a desordem
+++++++++++++++++ da sua vida.

Virginia Astley


From gardens where we feel secure, a minha banda sonora de Verão para estes dias de frio. Óptimo para ouvir enquanto se lê pois a música não é intrusiva, limita-se a criar atmosfera. Virginia Astley.

Quinta-feira, Janeiro 25, 2007

Através das Oliveiras, Abbas Kiarostami, 1994


Vi este filme, há uns anos atrás, no Cineclube de Faro. De tantos que vi nessa altura (foi nessa sala que aprendi a gostar de Cinema), guardei este com carinho, sobretudo o famoso plano final em que Hossein tenta convencer Tahereh a casar-se com ele (a família dela não concorda com o casamento), seguindo-a através das oliveiras (lá está), enquanto ela caminha, alguns seguros passos adiante, indiferente ao "maior coiro" de todos os tempos. A certa altura, deixamos de o ouvir e tudo o que vemos são dois pontinhos brancos perdidos na distância, no meio do verde, sempre em movimento, um atrás do outro.
Este filme passou no passado fim-de-semana, na Gulbenkian. Não o fui rever e ainda não me perdoei.

SCOOP de Woody Allen

"Afinal de contas, Woody Allen é alguém que, discretamente, assume as consequências de um universo em que dizer "eu" é, por assim dizer, um princípio sagrado de trabalho. Daí que o vejamos envelhecer como um amigo em que admiramos a didáctica combinação de realismo e magia. A sua arte ajuda-nos a lidar com as incertezas do mundo."
citando João Lopes, Diário Notícias, 19/01/2006, revista 6.ª

Sexta-feira, Janeiro 19, 2007



Os Galgos, c. 1911, Óleo sobre tela, 100 x 73 cmLisboa, Colecção CAMJAP/FCG

Amadeo de Souza-Cardoso

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

Amadeo de Souza-Cardoso



Foi um verdadeiro fenómeno de massas esta exposição de Amadeo na Fundação Calouste Gulbenkian. Tão grande que na noite de sábado 13 para domingo 14, a Gulbenkian não fechou portas e ainda assim as filas pareciam não querer diminuir. A foto em baixo foi tirada ao final do dia de sábado, numa altura em que as filas estavam no pico. Para não as enfrentarmos, resolvemos ir ao cinema, jantar, passar por casa para estender uma máquina de roupa e pôr doce de tomate em frascos; quando voltámos à carga, o cenário já era bem diferente (foto de cima, por volta das 5,00h da madrugada de domingo).
Imaginamos, de noite, os quadros às escuras nas salas dos museus. Desta vez, os quadros não conseguiram dormir. E nós também não.

Bom Ano Novo! (a frase mais dita, por estes dias)





Entrei no Ano Novo, no Porto. Finalmente a visita à Casa da Música (na foto em baixo), finalmente a visita nocturna ao Maus Hábitos, um bar muito descontraído mesmo em frente ao Coliseu ... finalmente voltar a Serralves e dirigir os meus desejos de Ano Novo à árvore, do outro lado da enorme janela, qual Floribela pensativa.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Forty Guns de Samuel Fuller



"O nosso passado é como a guerra: fácil de começar, difícil de terminar."

Abraços Grátis



No fim-de-semana passado, houve quem, em plena Baixa lisboeta oferecesse "abraços grátis", contrastrando com toda aquela azáfama de gente às compras. Alguns transeuntes carregados de sacos franziam o sobrolho, com desconfiança. A minha irmã, pelo contrário, não se fez rogada e usufruiu da borla.

Domingo, Dezembro 03, 2006

Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan




Não creio que o país insultado neste filme seja o Cazaquistão. O país-alvo parece-me ser antes "U.S. and A."

Hilariante e corajoso.

Nome de Moliceiro # 6


Orgulho de Canpião

Nome de Moliceiro # 5



Já não te Endireitas

Nome de Moliceiro # 4


Carina Micaela

Nome de Moliceiro # 3


Paulo e João

Nome de Moliceiro # 2



O barco mais à esquerda é o Bolachinha

Nome de Moliceiro # 1


Pedro, o Pescador

Sábado, Dezembro 02, 2006


Ria de Aveiro, Novembro de 2006
Ao entardecer, a ria de Aveiro parece um quadro do Turner, até lá estão as pinceladas.

Dans Paris de Christophe Honoré


Ora aqui está mais um filme alusivo a Paris. Este, passa-se sobretudo em interiores mas o cunho parisiense está bem patente. Todos os estereótipos do cinema francês marcam presença: os desencontros amorosos, as personagens que fumam desalmadamente, têm ocasionalmente livros nas mãos ou nas prateleiras, não seguram a roupa no corpo muito tempo, têm problemas emocionais (depressões e afins) e gostam de se enfiar em camas. Um verdadeiro "filme de género".

Quarta-feira, Novembro 29, 2006

Paris je t´aime

Fiquei com vontade de voltar a Paris e caminhar pelos seus bairros, depois de ver este Paris je t´aime. Trata-se de um filme colectivo, composto por uma sucessão de pequenas histórias, da autoria de diferentes realizadores. Em comum, têm o facto de promoverem Paris como uma cidade especial onde afectos de toda a casta acontecem, desde o amor maternal, ao amor paixão, ao amor à primeira vista, passando pelo amor surreal (entre dois mimos) até culminar no amor à própria cidade. A única pena é irmos perdendo o rasto às personagens pois as histórias são curtas e independentes entre si. Se nunca tivesse ido a Paris, até poderia julgar tratar-se de uma forma inteligente de promover a cidade e o seu turismo. Mas quando penso na única vez em que lá estive, as certezas de que este filme seja apenas ficção diminuem drasticamente.

Declaração: sou a favor das casas coloridas.





Casas na Costa Nova (perto de Ílhavo), Aveiro e em Ovar.

Mário Cesariny



"ama como a estrada começa"

Lembro-me da interrogação sobre o sentido deste verso, da primeira vez que o li. Como acontece com toda a poesia, acabei por lhe encontrar um sentido íntimo embora sempre tenha mantido a curiosidade em saber o que o autor (Cesariny) tinha em mente quando o escreveu. Recentemente, num documentário que passou na TV, pude finalmente ficar a saber porque o poeta respondeu assim à tão esperada pergunta: "Não sei o que este verso quer dizer... mas quer dizer."

Esta resposta não é apenas uma pista para entender o Surrealismo. É uma pista para entender a poesia.

Segunda-feira, Novembro 27, 2006

Mário Cesariny de Vasconcelos (Agosto de 1923 - Novembro de 2006)


"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

Para ouvir (a voz de Cesariny n´Os Poetas):

Domingo, Novembro 19, 2006

Lisboa, esta tarde

Em cima: vista do café Noobai (Miradouro de Santa Catarina);
Em baixo: morador no Bairro de Santa Catarina, à janela.

Como o Cinema era Belo

The Ghost and Mrs. Muir de Joseph L. Mankiewicz (O Fantasma Apaixonado, na tradução portuguesa) é um dos filmes que passa neste ciclo de cinema na Gulbenkian. Sobre ele, escreveu Bénard da Costa:
"Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde de mais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo de mais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe- é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta."
É certo que uma obra de arte vale por si, não necessita de metalinguagens para nada. Mas Bénard da Costa consegue sempre acrescentar qualquer coisa, algo que vem consolidar o nosso amor por determinado filme. Há uma afectividade contida, emocionada, nas críticas que faz aos filmes que nos dá a conhecer. Bénard da Costa fala de alguns filmes usando do mesmo tipo de ternura que eu usaria para falar do gato Pirolito que me morreu na infância ou da nespereira que o meu pai plantou em criança. Os filmes são marcos na sua vida: "(...) fui buscar a mais bela, esse The Ghost and Mrs. Muir de Joseph L. Mankiewicz, que me persegue desde que o vi, ainda não tinha 13 anos, até que o revi, nesta mesma Gulbenkian, ainda não tinha 45 anos e nunca mais pensei que nestes últimos 25 anos o fosse rever tanto e tanto até quase o saber de cór." Talvez não seja abusivo dizer que os filmes são a sua vida.

Como o Cinema era Belo

Inserido nas comemorações dos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian (1956-2006), o ciclo "Como o Cinema era Belo" apresenta-nos, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa, 50 filmes inesquecíveis, distribuídos por sábados e domingos até 18 de Fevereiro/2007.
Avizinham-se fins-de-semana bem passados, é o que é.

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Rumo ao Sul: Miróbriga


D. Clarisse contou-me, enquanto segurava nestas bolotas, que em rapariga, costumava ir à feira de Santo André comprar alcomonias, figos passados, rebuçados de pinhão ... e colares de bolotas.

Rumo ao Sul: Miróbriga, Alentejo


Pensar que no séc. V-IV a.C. já por aqui andavam povos, pisando estas pedras...
No outro dia, num programa na televisão, Carlos Ascenso André (tradutor da Arte de Amar de Ovídeo) reiterava aquilo que sempre tenho ouvido dizer: está tudo nos clássicos, a partir daí, a humanidade tem-se limitado a transformar o que já foi inventado. E isto aplica-se a todas as realidades, sejam elas técnica narrativa, arte da sedução (como nos ensina Ovídeo) ou organização do espaço urbano, como no caso de Miróbriga e de outras cidades romanas.
Neste capítulo do urbanismo, temo até em afirmar que as reinvenções posteriores, em muitos casos, só degeneraram.

Domingo, Novembro 12, 2006

Rumo ao Norte: Vidago


Talvez até fique no mesmo quarto ...

Rumo ao Norte: Vidago


Daqui por dois anos volto lá, irei à procura destes caminhos, tentarei repetir o percurso de bicicleta pelo meio de cedros, plátanos, pinheiros, azevinhos e medronheiros. Quando conseguimos, voltamos sempre aos lugares onde fomos felizes.

Sábado, Novembro 11, 2006

Rumo ao Norte: Vidago



O projecto de requalificação é da autoria de Siza Vieira. Esperemos que ele saiba manter a alma romântica do sítio e a relação da casa com as árvores em volta.

Rumo ao Norte: Vidago


O Vidago Palace Hotel encerra para obras de requalificação dia 12 de Novembro e só volta a abrir portas daqui por 2 anos. Fui lá despedir-me.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Rumo ao Norte: Vidago

Foi por causa destas árvores que rumei ao Norte.
Penso muitas vezes nelas; penso agora nelas, na chuva que neste instante (certamente) se desaba sobre as suas folhas, verdes, amarelas e avermelhadas.

Rumo ao Norte: Vila Real




Casa de Mateus e Sé de Vila Real (em baixo)
*
Há muito que queria ir à Casa de Mateus. Como explicar isto? Quando se viaja, é frequente encontrar sítios inesperados, que nos surpreendem. Mas entrar finalmente numa realidade que até ali só era conhecida por muito nos depararmos com ela num livro ou no ecrã de um computador, é outra coisa, é o que fascina muitos viajantes. Basta atentarmos no exemplo dos museus: é à volta dos quadros mais reproduzidos que vemos mais gente a acotovelar-se, não é que esses quadros sejam melhores do que outros menos conhecidos, é porque naquele momento aquele quadro até ali longínquo e inacessível torna-se real, está ali, concreto, diante de nós. Pisar as pedras em Mateus, passear ao longo do seu espelho de água, tocar o cedro centenário, foi para mim ultrapassar (finalmente) a sensação de lonjura que sempre me provocaram as fotografias da Casa impressas num volume de História da Arte Portuguesa que para ali tenho guardado. Foi desvendar um mito.

Rumo ao Norte: Peso da Régua

Aqui estamos em pleno Douro vinhateiro. Espero muito voltar a fazer este percurso que tanto me impressionou: entre Sabrosa e o Pinhão e dali, junto ao rio, até Peso da Régua. O Orlando Ribeiro explicava a natureza do povo português de acordo com o espaço geográfico onde este se insere. Sempre achei esta hipótese pouco plausível mas ver aqueles socalcos fez-me compreender a tenacidade das gentes do Norte de uma maneira diferente.

Rumo ao Norte: Lamego


Esta terra tem magia. Talvez seja do musgo, talvez seja do fumo dos assadores de castanhas nesta altura do ano, do Escadório da N.ª Sr.ª dos Remédios. Ou talvez seja da bôla, uma delícia.

Rumo ao Norte: Viseu

Adro da Sé, Viseu
*
Quem quiser ver um corropio de gente e de carros, é abeirar-se num domingo de manhã ao Adro da Sé, em Viseu. Famílias inteiras, aprumadas nas suas roupas engomadas chegam, partem, comentam aqui e ali que "o chenhor padre hoije falou que foi um regalo" ou "achjeita o bestido, Cárina". Enfim, uma ternura de gente, repartindo-se ora pela missa da Sé, ora pela da Igreja da Misericórdia, mesmo em frente.
Por mim, decidi-me pelo Museu Grão Vasco (que há muito tinha curiosidade em visitar), instalado mesmo ao lado da Sé, no Paço dos Três Escalões. Quando saímos da visita ao museu, as missas já tinham terminado e o adro quase deserto, já nem parecia o mesmo "debem ter ido almoçar", pensei; e muito bem fizemos em seguir-lhes os passos.

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Rumo ao Norte: Figueiró dos Vinhos

Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos
*
Aos domingos de manhã, a mãe entrava de rompante no nosso quarto de meninas, puxava com energia as persianas até ao cimo, lá fora, chuva e frio, os cobertores pelas orelhas, resmungávamos "só mais um bocadinho" mas sempre em vão pois aquelas mãos frias de tanque e lixívia eram implacáveis, destapavam-nos, obrigavam-nos a entrar na banheira, onde nos esfregavam à vez, a mim e à minha irmã Carla, cada uma tiritando de frio para seu lado, o sabonete a arder-nos nos olhos. Eram ainda essas mãos que nos vestiam as camisolas de lã grossa (algumas picavam no pescoço), nos desenriçavam os nós nas pontas dos cabelos, as mesmas mãos que tínhamos de agarrar, em passo de corrida, para não ficarmos para trás, a caminho da missa, quantas vezes com os sapatos domingueiros a roerem-nos os pés. O que as nossas pequenas cabeças nunca perceberam foi para que raio era toda aquela lufa-lufa se depois o tempo parava durante uma interminável hora. Valia-nos a imaginação, pois enquanto os nossos corpos oscilavam entre o ajoelhado, o em pé e o sentado, esta ora corria atrás da pequena ovelha da imagem do São João Baptista menino (padroeiro de Figueiró) ora mergulhava na água translúcida que o pintor Malhoa tão bem soube captar no retábulo da Capela Mor, representando o baptismo de Cristo, provavelmente o quadro que mais longamente observei até hoje.

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

The Pillow Man




Foi por um triz que não falhei esta peça no renovado Teatro Maria Matos mas tudo acabou em bem graças a alguém que desistiu da sua reserva, no último dia de exibição, e me possibilitou tomar o seu lugar, não obstante este ficar mesmo atrás do teenager mais guelhudo da sala. Valeu-me a contaminação cinematográfica da encenação portuguesa (obrigada Tiago Guedes) que fez com que grande parte da peça se passasse numa espécie de ecrã, elevando assim o palco acima da linha do olhar.
No post anterior queixava-me desta tendência, espécie de "air du temps" no mundo das artes para a descrença, a angústia, a solidão, os ambientes "urbano-depressivos". Sobretudo no teatro, chega a ser asfixiante pois as peças de "novos" dramaturgos que tenho visto são quase todas deprimentos, uma gargalhada amarga aqui e ali e sai-se com a sensação de alguém nos ter dado um murro no estômago (basta pensar em nomes como Sarah Kane, Jon Fosse ou Harold Pinter). The Pillow Man de Martin McDonagh insere-se nesta propensão embora de forma consciente. Sentimos isso porque toda a diegése problematiza e luta para o final feliz e mesmo as pequenas histórias que se vão contando têm finais tão trágicos (uma tragicidade religiosa, apiedada) que chegam a ser ridículos. Pensemos na história da menina que queria ser Jesus (e que acaba cruxificada, claro está), na história da criança surda a passear numa linha de comboio (sendo surda não ouvia o comboio aproximar-se) ou na história da criança a quem são dados a engolir bonequinhos feitos de maçã com lâminas dentro. Tudo num género "história de embalar de faca e alguidar".
O fascinante nesta peça é que não se percebe bem qual é o tema pois fala-se de muita coisa, tornando inúmeras as possibilidades de interpretação. Todas as críticas que li antes de ir ver a peça destacavam coisas diferentes, de tal modo que cada crítica parecia incidir sobre uma peça diferente. Eu própria tive dificuldade em explicar a um amigo do que tratava, acho que só vendo e interpretando cada pessoa poderá dizer do que trata (para si) The Pillow Man. Compreendi isto mais profundamente quando o personagem principal, o escritor Katurian, interrogado sobre qual a mensagem das suas histórias, responde que elas não querem dizer absolutamente nada, são apenas histórias e contá-las é o que interessa a um escritor. O que Katurian virá a descobrir é que, embora sem intenção, as suas histórias (a maioria delas, relatando infanticídios) têm inevitavelmente os seus efeitos (perversos) nas pessoas, nomeadamente no seu irmão. Mesmo uma história sem intenção de transmitir seja o que for, acaba por ter um efeito a partir do momento em que alguém a lê e a interpreta de acordo com o seu universo pessoal. Merecerá o escritor ser julgado por esse efeito? Ou será que o lado nocivo de uma história está apenas no lado da interpretação?
De algum modo, é também sobre a individualidade que esta peça fala na medida em que uma história apenas adquire sentido(s) quando é individualmente interpretada. Sintomático deste alicerce é a shortstory que é contada sobre um porquinho especial: o porquinho verde vivia orgulhoso da sua diferença no meio dos outros porquinhos rosados. Por ser diferente, alguém invejoso o pintou com uma tinta côr-de-rosa que não saía nem quando se lavava. Assim, o porquinho verde ficou igual aos outros porquinhos rosados. Acontece que certo dia, choveu tinta verde, daquela que não sai nem quando se lava e todos os porquinhos ficaram verdes, à excepção do nosso porquinho cuja tinta côr-de-rosa não saía nem podia ser lavada. O porquinho côr-de-rosa conseguiu assim permanecer diferente, no meio dos outros porquinhos verdes.
No outro dia, o António Torrado (escritor português de livros para crianças) falava na televisão sobre a capacidade que as histórias infantis têm para exorcizar o medo. Isto faz todo o sentido, sobretudo se pensarmos na brutalidade contida nas nossas histórias infantis e que nem por isso nos traumatizaram (pelo contrário, ajudaram-nos a crescer): ele é o lobo mau que come a avozinha, ele é o "atirei o pau ao gato mas o gato não morreu", ele é o Barba Azul mais as suas mulheres mortas, todo um uiverso que permite (segundo o António Torrado e eu concordo) materializar na ficção o medo que todas as crianças sentem. The Pillow Man é uma dessas histórias destinadas a todos os adultos que ainda não perderam o medo e querem continuar a crescer. Através das histórias de embalar que ouvimos nesta peça, exorcizamos os nossos medos de gente grande, entre os quais, o medo de ser diferente.

Domingo, Outubro 15, 2006

Lady in the water de M. Night Shyamalan

O homem merece ser salvo?
*
Gosto de filmes assim, filmes (epopeicos) que nos fazem voltar a acreditar na grandiosidade do ser humano, na possibilidade do conto de fadas acontecer no sítio mais comezinho, com as pessoas mais banais, impondo-se contra a vida snob, pessimista e previsível. Não é à toa que, neste filme, o único personagem a merecer morrer é também o mais enfastiado com a vida e com a arte, um crítico de cinema preso na convicção de já nada ser capaz de lhe ensinar alguma coisa, preso no cânone e no estereótipo, os quais afinal acabam por o surpreender da forma mais cruel, matando-o. No meio desta atmosfera artística tão descrente, é redentor vermos emergir um filme assim, fazendo-nos acreditar que todas as pessoas, por mais (a)normais ou estranhas que aparentem ser, são na verdade portadoras de um sentido imprevisível até para elas próprias, uma missão longe dos estereótipos e contra a maldade do mundo. É de novo a possibilidade renascentista do homem como Deus, imortal, do homem que merece ser salvo.
*
É também esta crença no ser humano que me faz gostar da poesia de Jorge de Sena. Convoco aqui um excerto de um dos poemas dele que mais gosto, chama-se "A Morte, o Espaço, a Eternidade" e foi escrito em 1/4/1961, sábado de aleluia (dia da ressurreição de Cristo):
+
"De morte natural nunca ninguém morreu.
Não foi para morrer que nós nascemos,
não foi para a morte que dos tempos
chega até nós esse murmúrio calvo,
inconsolado, uivante, estertorado,
desde que anfíbios viemos a uma praia
e quadrumanos nos erguemos. Não.
Não foi para morrermos que falámos,
que descobrimos a ternura e o fogo,
e a pintura, a escrita, a doce música.
Não foi para morrer que nós sonhámos
ser imortais, ter alma, reviver,
ou que sonhámos deuses que por nós
fossem mais imortais que sonharíamos.
Não foi. Quando aceitamos como natural,
dentro da ordem das coisas ou dos anjos,
o inomável fim da nossa carne; quando
ante ele nos curvamos como se ele fôra
inescapável fome de infinito; quando
vontade o imaginamos de outros deuses
que são rostos de um só; quando que a dor
é um erro humano a que na dor nos damos
porque de nós se perde algo nos outros, vamos
traindo essa ascensão, essa vitória, isto
que é ser-se humano, passo a passo, mais."
(...)

Sábado, Outubro 14, 2006

Royal Academy of Arts, (ainda as saudades de Londres)

Quarta-feira, Outubro 11, 2006



O metro de Londres faz-me lembrar a casa da toupeira de uns desenhos animados que via quando era criança e que adorava. Percorrê-los é entrar num universo de aventuras e brincadeiras, para o qual até uns ratitos que vi a passearem-se pelas linhas, dão a sua contribuição (felizmente não vi nenhuma ratazana, senão o caso mudava de figura).



Mercado em Brick Lane, uma espécie de Feira da Ladra lá do sítio onde é possível encontrar de tudo um pouco, desde televisões roubadas, antiguidades, roupas, frutas e até uma Convenção Anual de Tatuagem, à porta da qual serpenteava uma grande fila de gente unida pelo facto de todos esconderem (ou não) no mínimo uma tatuagem em alguma parte do seu corpo.

Terça-feira, Outubro 10, 2006


O London Eye, diz o meu Guia é "uma espantosa proeza de engenharia, esta roda-gigante panorâmica é a mais alta do mundo e oferece uma vista fascinante da cidade." Foi bastante divertido este "voo" sobre Londres e até nem tivemos de esperar muito tempo (o truque é ir cedo, já que as filas costumam ter tempos médios de 2 horas de espera). Embarcámos numa destas cabinas com uma família de chineses e já se está mesmo a ver (ouvir) a nossa banda sonora: clic, clic, flash, flash (para um leitor de BD, isto deve ser suficientemente ilustrativo).
Fiquei a modos com o coração nas mãos por causa do patife deste miúdo (digamos que do outro lado das grades, é o rio). Londres às vezes parecia-me um palco enorme onde todos procuravam exibir as suas habilidades, nas ruas, no metro, há sempre alguém que se expõe de uma maneira que nos capta a atenção.
Uma árvore no Hide Park não deveria ser motivo de admiração, mas gostei particularmente desta, talvez por a ter notado ao entardecer.

Sábado, Outubro 07, 2006


Amanhã há mais...
Esta foto podia ter sido tirada em qualquer lado, mas a verdade é que, tal como as anteriores, diz respeito à cidade da rainha e dos muffins.

O Buckingham Palace, ao fundo da avenida Pall Mall.
Mais uma de Trafalgar Square (a foto parece estar tremida mas acho que é mesmo assim)
Trafagar Square/ National Galery

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Debaixo da Millennium Bridge, com a Modern Tate à minha espera na outra margem do rio Tamisa.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006


St Paul's Cathedral e a City (panorama a partir da Tate Modern)
*
Pensamento que acompanhou o "clic", ao tirar esta foto: a quantidade de gente (estudantes de várias idades, artistas, cidadãos anónimos) que vi, com cavaletes ou sentados pelos chãos dos corredores das Tates (Modern e Britain), da National Gallery e não só, em frente aos quadros, desenhando, imitando os pintores que mais admiram ou simplemente conversando sobre as obras, transformando os museus em sítios verdadeiramente aprazíveis, sítios onde até o espaço pode ser inspirador (como o senhor da foto acima, desenhando a paisagem à sua frente), sítios onde as crianças (juizes implacáveis destas coisas) gostam de estar e se divertem. De facto, a maior prova desta aprazibilidade é mesmo a quantidade de crianças que vi, aos magotes, puxando lápis dos bolsos dos seus uniformes aos quadradinhos, todas com imenso jeito, o que só pode ser consequência de muitas horas a treinar o risco, com gosto. Lembro-me em particular dum grupo de crianças, com 10/12 anos no máximo, alinhadas em frente ao quadro Water do pintor flamengo Joachim Beuckelaer, copiando peixes pacientemente para os seus cadernos, tão bonitos os desenhos daquelas crianças, tão perfeitos os seus peixes (e tinham muitos para copiar já que nesse quadro foram identificadas 12 espécies diferentes). Lembro-me que desviei os olhos da parede para os fixar nos blocos coloridos das meninas, um pouco invejosa daqueles lápis de cor de tantas tonalidades (aos quais não tive acesso na minha infãncia pois só tinha seis e poupadinhos), daquela intimidade com quadros de grandes pintores, quando a maior inspiração para as pinturas da minha infância eram as Histórias do Avozinho (tinham umas gravuras muito perfeitinhas) e os desenhos de passarinhos e flores da minha mãe, em sobras de papel pardo. A questão é: porque é que nos nossos Museus (em particular, no Museu de Arte Antiga) isto não acontece? Foi a consciência deste fosso palpável que soou dentro de mim como uma campainha, em uníssono com o clic ao premir o botão da máquina fotográfica.

Postal de Londres

Os neons ao entardecer em Piccadilly Circus.
A cúpula da St Paul Cathedral (obra prima de arquitectura de Sir Chistopher Wren) vista através da ponte pedonal Millennium Bridge.

Imagens do ceu entre Lisboa e Londres, esta tarde



Embora com algum atraso, o aviao sempre descolou. Ja estou em Londres e so nao escrevo mais pois ja me estou a passar com a falta de acentos (teclados made in UK).

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Gostos Simples

Restaurante La Trattoria (Rua da Artlharia 1- Lisboa)

Eis como se pode fazer feliz uma rapariga como eu: um dia ao entardecer, junta-se uns amigos que nos vêm bater à porta, poucos mas bons como se costuma dizer, pensa-se que se calhar até não era má ideia a malta ir comer a qualquer lado, alguém sugere o La Trattoria e partimos. Chegados lá, que giro, que restaurante tão "Nova Iorque", já reparaste que os vemos a cozinhar-gosto sempre de ver a cozinha nos restauantes, o meu calzoni está óptimo, o vinho é excelente, aquela pizza está cá com um bom aspecto (deve ser do forno a lenha), o teu rizotto também não está nada mal e o vinho que bem que me está a saber, umas piadas parvas entre garfadas, umas gargalhadas, ai as sobremesas, uns desabafos, a conta até nem custou muito a pagar e no fundo dos nossos pratos vazios fica a promessa de voltar (talvez com mesa junto à janela).

Domingo, Outubro 01, 2006

Ontem de manhã, na Baixa de Lisboa



Sábado, Setembro 30, 2006

Livros em Desassossego

Na passada quinta-feira à noite, dia 28 de Setembro, fui até à Casa Fernando Pessoa onde decorreu mais uma tertúlia, desta vez dedicada ao tema "Aprende-se História lendo romances históricos?". Contando, uma vez mais, com a moderação de Carlos Vaz Marques, teve como convidados Pedro Almeida Vieira (autor de dois romances históricos), o muito interessante historiador Rui Tavares (autor do Pequeno Livro do Grande Terramoto), Miguel Real (confirmado recentemente vencedor do prémio Fernando Namora com o romance A Voz da Terra) e ainda o editor da Caminho, Zeferino Coelho. António Mega Ferreira também era convidado mas baldou-se à última da hora (incompatibilidades de agenda).
Lançaram-se várias achegas mais ou menos interessantes sobre o tema, entre as quais: aprende-se efectivamente história lendo romances históricos? desaprende-se história lendo romances históricos? um escritor aprende história escrevendo romances históricos? o que é afinal um romance histórico?
Confesso que, a páginas tantas (talvez fruto de um dia de trabalho cansativo), a intervenção de Miguel Real já me fazia doer as costas. Felizmente, Carlos Vaz Marques - é para isto que serve um bom moderador - apercebeu-se do desconforto dos corpos presentes nas respectivas cadeiras, e deu a palavra a outro orador. A participação mais interessante da noite revelou-se também a mais inesperada: a de Zeferino Coelho, editor da Caminho, homem de sorriso irónico e imagem "quixotesca" cuja opinião sobre o tema parece ter caído como uma bomba entre os presentes: afirmou não esperar que um livro lhe ensine alguma coisa, Na verdade, um livro que apenas contenha vida quotidiana e nenhum saber enciclopédico não é necessariamente menos literário, não é a capacidade de ensinar alguma coisa que faz uma boa obra. Por isso, quando foi pedido a Zeferino Coelho que sugerisse três livros publicados este ano (sem ser pela Caminho), empertiguei-me toda na cadeira para o ouvir melhor. Um deles foi A educação pela pedra do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (de cuja poesia já ouvi falar muito bem mas de quem nunca li nada). E foi o entusiasmo deste senhor editor que me fez ir, nesta manhã de sábado, adquirir o 12.º volume do Curso Breve de Literatura Brasileira que é nem mais A educação pela pedra do João Cabral de Melo Neto. A ver se vai ser boa companhia.

Higiene Pessoal

Uma pessoa constipa-se ligeiramente. Continua a fazer a sua vida normal: vai ao cinema, sai com os amigos, vai à mercearia, ao talho, viaja, cozinha, rega as flores, lê uns livros, dá uns beijinhos, prega partidas, ri, chora (até ajuda a expelir o muco), vai ao futebol, uns respingos e um nariz encarnado pelo meio, visita umas exposições, janta fora, vai trabalhar... mas não pode ir à natação. NÃO PODE IR À NATAÇÃO. Descobri isto um destes dias, estava eu com água de piscina até às orelhas e eis senão quando um espirro me vem ameaçar (só a muito custo o segurei, podia-me até ter afogado com esta brincadeira). Como é que uma pessoa constipada mantém a sua dignidade nas aulas de natação, evitando o asco dos outros? Como é que uma pessoa se assoa dentro de água, com que lenço? E onde é que os guarda, caso houvessem lenços impermeáveis? Foi uma descoberta fulminante, esta da possibilidade de ter de ficar em casa a assoar-me enquanto os outros (incluindo um miúdo de 8 anos que goza sempre os meus mergulhos-o parvo) vão para a natação ao final do dia. Vou-me guardar das correntes de ar e das aves, é o que vou fazer.

Quarta-feira, Setembro 27, 2006

Vida de Estudante


Depois de ter passado os últimos dias prisioneira da volatilidade das taxas de juro e dos preços, dos modelos de gestão de risco, da Duration, do Value at Risk, das posições cambias líquidas, do Mercado Monetário Interbancário, do Diferencial de Fundos Simples e Incremental, do controlo da liquidez e quejandos, foi uma verdadeira libertação (finalmente) arrumar os livros na prateleira.
Estou de pensamento livre outra vez.

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

21 de Setembro: Dia Internacional da Paz



Hoje passei por esta rua.

Domingo, Setembro 17, 2006

"Faça Favor", um filme de Pierre Salvadori

Uma comédia inteligente, que esconde por detrás da sua ligeireza uma espécie de "teoria do beneficio".
Como sinopse, poderemos dizer que esta é a história de Antoine, chefe de mesa num restaurante em Paris, que certa noite, estando já atrasado para um encontro, opta por cortar caminho por meio de um jardim, dando de caras com um desconhecido que naquele mesmo momento se tenta enforcar. Impedido o suicídio, Antoine passa a sentir-se responsável pela vida de Louis, procurando, de forma generosa e abnegada que este volte a gostar de viver. E de tal forma é a sua entrega a esta causa que não podemos deixar de rir, quando, a páginas tantas, Louis (o ingrato) se vira para Antoine e o acusa de só pensar em si própro, de ser um egoísta. Apesar de tudo indicar o contrário, caladas as gargalhadas, começamos a pensar que talvez esta acusação não seja assim tão desprovida de sentido. De facto, por detrás do "tipo bonzinho" que é Antoine, há sobretudo o "tipo que não sabe dizer que não", o tipo que se prejudica para ajudar um desconhecido a retomar a sua vida mas que despreza a sua própria namorada (esquecendo-se do aniversário de três anos de namoro). Na verdade, apesar das evidências não o dizerem, o que move Antoine não é a atitude altruísta, é o amor a si próprio.
A propósito deste filme, lembrei-me das Memórias Póstumas de Brás Cubas (há livros que são uma espécie de enciclopédias: têm lá tudo), mais propriamente ao capítulo que Machado de Assis dedica à "Teoria do Benefício". Fica aqui um excerto:
*
"o prazer do beneficiador é sempre maior que o do beneficiado. Que é o benefício? é um ato que faz cessar certa privação do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto é, uma vez cessada a privação, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incômodo, desabotoas o cós, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna à indiferença e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato."
Sobre o prazer do beneficiador escreveu Machado de Assis: "Primeiramente, há o sentimento de uma boa acção, e dedutivamente a consciência de que somos capazes de boas acções; em segundo lugar, recebe-se uma convicção de superioridade sobre outra criatura, superioridade no estado e nos meios; e esta é uma das coisas mais legitimamente agradáveis, segundo as melhores opiniões, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas cousas boas, chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que ele não disse, a saber, que se um dos burros coçar melhor o outro, esse há de ter nos olhos algum indício especial de satisfação."

Sábado, Setembro 16, 2006

Opinião sobre a Futurologia

"Até um relógio avariado acerta na hora duas vezes."

Finisterra


Sinto as finisterras como os sítios mais apaziguadores do Mundo.
Porque não são sítios decisivos: não é ali que tudo acaba e também não é ali que tudo começa.
Há, no entanto, uma ruptura que nos dá esperança e faz sentir bem.

Its a girl !


Dentro desta barriga, misteriosamente, já mora uma bébé.
E como estas coisas passam sempre a correr, em pouco mais de um mês a pequena Joana já estará cá fora, a olhar para nós, esticando as mãos para nos mexer, ao mesmo tempo que vai aprendendo a falar, a andar e a sorrir.
Há quem se orgulhe de ter amigos que são famosos porque escreveram livros ou pintam bem, participaram em reality shows ou são Ministros... eu tenho uma amiga que está grávida. E há poucas coisas mais incríveis para se estar nesta vida.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

fotografias da rua de Lisboa que eu mais piso


As fotos ainda estão um bocadinho toscas mas são a primeira fornada da minha mais recente aquisição: uma pequena máquina fotográfica Olympus (digital que é para me facilitar a vida).
Se olharmos com atenção, na foto de baixo está uma velhinha à janela (do lado direito). Na verdade, mais difícil será encontrar uma foto tirada num bairro antigo de Lisboa que não tenha uma pessoa idosa à janela...

Geração "Anos 90"


Até há pouco tempo, o revivalismo da nossa "massa crítica" concentrava-se unicamente na música dos anos 80.
É certo que a maioria dessas músicas não me são desconhecidas, mas a verdadeira emoção (a vontade de quase chorar), o frio na barriga ... só as músicas dos anos 90 conseguem ter esse efeito em mim.
Curiosamente, nos últimos tempos comecei a ouvir falar nos "anos 90" e nos hits dos nineteens (talvez porque este ano as pessoas da minha geração fizeram - no mínimo - 30 anos e começam a ser também elas "massa crítica").
Aqui ficam 2 exemplos de Músicas para Sonhar: "Dreams" dos Cranberries e "Bluebeard" dos Cocteau Twins (para ouvir basta clicar em cima dos nomes das canções).
As mesmas canções, mas em cantonês (nas fantásticas versões de Faye Wong) podem ser ouvidas aqui.

Perder o medo de voar

Depois do bombardeamento de imagens dos últimos dias (alusivas ao 11 de Setembro), perder o medo de andar de avião tornou-se tarefa árdua.
Mas com o vídeo que encontrei no blog do Rui, talvez consiga voar outra vez: Bright Eyes com "At the Bottom of Everything" (lindo!).

Sábado, Setembro 09, 2006

United 93 (Paul Greengrass)


O filme que recria de uma forma muito realista, em estilo documental, o trajecto do quarto avião desviado por terroristas muçulmanos no 11 de Setembro (o voo United 93), desde os momentos que antecedem o embarque até ao despenho numa zona rural da Pensilvânia, não chegando a atingir o seu alvo em Washington.
E é a angústia desses 91minutos de voo que verdadeiramente vivemos neste filme, 5 anos depois. Um filme que deve a sua verosimilhança menos ao facto de retratar um caso real e mais à forma como é encenado: sem heróis nem moralismos. O facto de não haver personagens mais desenvolvidas nem por isso diminui a nossa identificação com as mesmas. Se eu fosse naquele avião seria certamente a rapariga que diz "eu não quero estar aqui, eu não quero estar aqui, eu não quero estar aqui!".
De tal forma somos "embarcados" neste filme, que saí da sala com a sensação de estar a contrariar uma das frases finais a aparecerem no ecrã e que dizia "não houve sobreviventes neste voo".

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

Uma casa feita com livros

Na Gulbenkian (hall do CAMJAP) até Dezembro deste ano é possível entrar numa casa feita com livros. A instalação chama-se Book Cell e o autor Matej Krén (n. 1958 na Eslováquia). A experiência de atravessar esta estrutura arquitectónica é uma verdadeira vertigem na medida em que o corredor que nos conduz é ladeado por espelhos que multiplicam ad infinitum o padrão de livros empilhados.
O interessante é que este conceito é perfeitamente passível de ser intelectualizado da mesma forma que qualquer criança lhe acha piada. Eu que até nem costumo gostar muito de instalações, fiquei completamente rendida.

Terça-feira, Setembro 05, 2006

os peixes também envelhecem e morrem


Compra-se uma casa e começa-se a enchê-la com tralhas, devagarinho. Tão devagarinho que passados seis anos ainda andamos a comprar coisas que fazem falta, num afã que nos distrai para o facto de, entretanto, algumas dessas coisas "mesmo novas" começarem a avariar.
Foi assim na nossa casa: primeiro avariou a televisão, a seguir o computador, depois o forno, finalmente o peixinho no aquário... e espero que fiquemos por aqui.
Foi preciso que tudo avariasse ao mesmo tempo para eu perceber que o tempo não passa apenas pelas vidas agitadas e intensas, revela-se igualmente implacável com as coisas de aparência discreta e imutável. Como o nosso peixinho vermelho que amanheceu uma destas segundas-feiras no fundo do aquário, com a espinha arqueada rente às pedras e a guelra a mostrar, numa intermitência de abre-e-fecha, a sua vermelhidão repisada. Também o nosso peixe aderiu ao pacto da nossa casa e avariou. Compreendi-o. Afinal, era das nossas coisas "novas", a mais antiga: ainda nós não tínhamos mobília de quarto e já o peixinho borbulhava no parapeito da cozinha, a pedir comida.
No intervalo do trabalho telefonei, para saber dele. Morreu. Quis saber como foi o enterro. A resposta veio expedita e sem dó: num papel-alumínio e foi para o lixo. Por momentos, imaginei o seu corpo tal como o tinha visto de manhã, translúcido e gasto, mas agora sem vida, no fundo de um caixote.
Fiz-lhe o luto devido mas devo confessar: fui uma verdadeira viúva alegre. Mal arrefeceu o lugar e já novos peixinhos se ondeiam no lugar do antigo. Que podia eu fazer? Um aquário vazio é como uma casa desabitada, não se pode deixar ganhar pó.

Sexta-feira, Setembro 01, 2006

Sonhar com Xangai (Wang Xiaoshuai)


A metáfora: uma família constituída por duas gerações apresenta-se como metáfora da China e da transformação que nela ocorreu ao longo de duas décadas que vão dos anos 60 à altura em que se passa o filme, nos anos 80. E como são abismais as diferenças entre a China dos anos 60 e a China que desabrocha nos anos 80, também o conflito geracional é apresentado como um drama, colocando num lado o pai desiludido com o que o país lhe prometeu, autoritário e oprimido, perdido na sua identidade geográfico-afectiva e do outro lado, a filha ainda prisioneira da rigidez do pai mas com uma lucidez e maturidade que denunciam já uma mudança.
A tragédia: é o sentimento de exílio da geração dos pais, deslocada das cidades para as províncias nos anos 60 para ali fazerem a "terceira revolução industrial", que irá despoletar a tragédia. A despromoção a "gente do campo" sentida pela geração mais velha, indo trabalhar para as fábricas no interior do país, nunca é vista por eles como definitiva. Quando, totalmente desorientados e exaustos, tentam regressar às suas cidades natais, já se passaram 20 anos e os filhos não querem voltar. Para a geração mais jovem destas famílias, Xangai, a grande cidade, é apenas um sonho, uma interrogação. A sua vida está nas pequenas terras onde cresceram, onde vivem os seus primeiros amores ainda juvenis, sentidos de forma exponencial e definitiva. Quando arrancados à força, estes amores contrariados tornam-se obsessões, tresloucam e o resultado são actos extremados como a tristeza absoluta e silenciada, a violação ou a morte.
Um filme que é uma metáfora sobre a China mas cuja tragédia (do exílio, da imigração, do amor contrariado, da proibição e censura, do conflito geracional, da mudança histórica...) é universal.

Quinta-feira, Agosto 31, 2006

31 de Agosto: o princípio do fim do Verão


(Burgo, Lousã)

A Ideia de Europa - George Steiner


Esta coisa da identidade sempre me deu que pensar.
"Quem sou eu" é a interrogação que me acompanha desde sempre e a pergunta-de-fazer-doer-a-cabeça mais remota de que tenho memória. Outras houve como "porque é que o Gabriel tem um cão e nós não" ou mais recentemente "porque é que nunca arranjo lugar para estacionar o carro" mas o mais provável é que se vão relativizando com o passar dos anos e não subsistam como a questão da identidade, do abismo que é pensar no que me define em relação ao Outro, enquanto pessoa, enquanto portuguesa, enquanto europeia (e por aí adiante). No que respeita a este último lugar, George Steiner n´ A Ideia de Europa ajudou-me (de uma forma muito prazeirosa) a arrumar razões.
Neste pequeno ensaio, George Steiner percorre os 5 axiomas que julga poderem definir a Europa relativamente ao resto do Mundo (especialmente em relação aos EUA). Um desses axiomas é a soberania da lembrança, "as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado". Há um in memoriam constante nos espaços que habitamos, "verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos". E aqui a oposição com os EUA, onde as ruas são designadas ora por números, ora por nomes de árvores, raramente referenciando o passado. Não vemos ali esta soberania da lembrança que tanto nos caracteriza, esta vontade de preservação da memória que nos leva a reconstruir cidades destruídas tal e qual como foram outrora (casos como Varsóvia, Dresden ou Dubrovnik) . Muito embora o renascimento fac-similado nunca seja a mesma coisa:
*
"Há algo de errado em toda aquela correcção. Como se mesmo as perspectivas de profundidade fossem meras fachadas. É muito difícil exprimir através de palavras a calidez, a aura que o tempo autêntico, o tempo enquanto processo vivido, confere ao jogo da luz sobre a pedra, os pátios, os telhados. No artifício do recontruído, a luz tem um travo a néon."
*

Quarta-feira, Agosto 30, 2006


A grande descoberta do dia: as emissões do programa Câmara Clara, todas on-line aqui.
Câmara Clara passa às sextas-feiras (22,30h) na Rtp2 e escusado será dizer que a maior parte das vezes não consigo ver. Problema solucionado. Agora tenho Paula Moura Pinheiro (que só peca por excessiva verborreia) e todos os seus convidados (exemplos: Abel Barros Baptista, Richard Zimler, Pedro Rosa Mendes, Inocência Mata, Nuno Crato, Ricardo Araújo Pereira ou Francisco José Viegas) à distância de um clique.

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

Autobiografia

(gravura de Günter Grass; a faceta de artista plástico)
O que mais quero reter de toda esta história do Günter Grass ter andado uma vida toda a pôr a Alemanha diante do seu passado nazi e depois escrever na sua Autobiografia que quando tinha 17 anos pertenceu às SS, anda muito longe do questionamento da validade da sua obra que esta revelação veio pôr à prova.
O que quero reter é sobretudo o que Günter Grass entende que deve existir numa autobiografia para que esta se revele necessária. Diz ele, como polémico que assume ser, que quando alguém decide escrever uma autobiografia, tem obrigatoriamente de se expor, nem que seja parcialmente, porque se isto não acontecer está-se a fazer uma espécie de auto-celebração.
Digo mais um pouquinho: a "taxa de bazófia" que tanto nos caracteriza diminuiria se cada um de nós, de cada vez que falasse de si, tivesse de revelar um pouco das suas fraquezas.
(isto tudo porque me irritou um "pintas" que ouvi ainda há instantes a gabarolar-se)

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Uma das poucas coisas que sei de cor

Houve uma altura na minha vida em que sabia dizer de cor Avé-Marias, Pais-Nossos, Salvé-Rainhas, os Mandamentos e outras tantas coisas das quais já não me recordo sequer o suficiente para as conseguir nomear. Hoje em dia, especialmente em alturas de aperto (que é quando mais me apraz rezar), por muito que me esforce, não me consigo lembrar do que vem a seguir a "bendito é o fruto do vosso ventre: Jesus". Que a minha mãe não saiba. Ainda me lembro da lagrimazinha ao canto do olho, quando pela primeira vez me ouviu debitar à sua frente o Pai Nosso, sem um engano, num esmero de criança concentrada e devota. Era um orgulho, embora na verdade, de tanto repetir estas orações na infância, as palavras tenham acabado por perder a sua lógica, transformando-se num amontoado de sons ocos que repetíamos em coro, durante a Catequese. Talvez por isso se tenham evaporado tão facilmente da minha memória.
Acho até que se algum dia me vir num aperto dos grandes, daqueles que levam as pessoas a levantar os olhos para o céu e rezar, o mais provável é que me ocorra pensar em Deus, dizendo este poema, que é uma das poucas coisas que sei de cor:
**
Casa
*
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
*
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
*
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...
*
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
David Mourão Ferreira

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Pensamentos Ilustrados

S. Cristóvão, Orazio Borgianni

O que tem de fantástico um livro é que através dele, e sem grandes fadigas, acedemos a anos de aprendizagem e reflexão. Bernard de Chartres (filósofo e monge do séc.XII) tem uma frase que descreve muito bem esta relação entre leitor e escritor: "Anões empoleirados nos ombos de gigantes". E desde que vi este quadro de Orazio Borgianni representando S. Cristóvão a carregar o Menino Jesus, esta passou a ser a minha ilustração para esse pensamento.
A memória tem destas coisas.

Sábado de manhã, no Cabeleireiro do meu Bairro

No Cabeleireiro do meu bairro faz-se de tudo um pouco: arranjam-se cabelos, mãos, pés, depilam-se pernas, virilhas, buços e sobrancelhas, fazem-se piercings e claro, sabem-se as fofocas mais quentes. Esta última tarefa é particularmente exigente, carecendo absolutamente dos funcionários que ali trabalham, um permanente dar à língua e um frenético receber de chamadas (a informação tem de vir de algum lado). O Dádo é um dos mais concorridos, o seu telemóvel toca de 15 em 15 minutos (palavra!) e ele lá vai fazendo malabarismos com o secador, a escova de enrolar e os cabelos das clientes, tudo para conseguir tirar o telemóvel (finalmente) do bolso das calças que estão para lá de justas, ó Dádo essas calças estão mesmo é apertadas!
Da última vez que lá fui, o Dádo recebe uma mensagem que deixa as "mininas" com a pulga atrás da orelha "Qué que cê tá sorrindo, Dádo? Que mensagem cê tá lendo? Deixa eu ver, deixa eu ver!". Sem nunca largar o secador, a escova e os cabelos que tinha em mãos, Dádo inclina a anca, oferecendo o bolso com o telemóvel à manicure Dirce "Puxa Dádo, que calça apertada, eu heim" ... Dirce demora algum tempo a ler a mensagem, depois lança para Dádo um olhar cobiçoso "Mas qui lindo! ... deixa eu ler prás mininas, deixa Dádo?... Então eu vou ler, ouçam só o que enviaram para o Dádo, cês não vão nem acreditar nesta boniteza: vai chegar um dia em que você vai pedir para eu escolher entre a minha vida e você; e eu vou ter que dizer que escolho minha vida e você vai-se afastar de mim sem saber sequer que minha vida é você!... Não é lindo gente?...Puxa que coisa mais linda, preciso mandar isto pra alguém, a quem é qui será que eu vou enviar isto?"
E o rosto de Dirce só fica sério quando, depois de muito pensar alto, acaba por dizer "Puxa Dádo, não tenho ninguém pra quem enviar isto!"

Terça-feira, Agosto 22, 2006

Miami Vice (Michael Mann)


Pensei que Miami Vice fosse um filme de porrada, com gajos latinos montados nas suas altas máquinas (descapotáveis, motos, lanchas, aviões a jacto), grandes mansões, muito neon, muito gel naqueles cabelos. Afinal encontrei mais do que isso.
Guardei um filme em que o espaço é também personagem; e sobretudo um filme cujo ritmo depende mais das relações amorosas (é nelas que está o pathos) e menos da "caça aos maus". Um filme em que o amor e o ciúme não são mencionados, são pressentidos em discretos olhos com lágrimas, de Isabella enquanto faz amor com Sonny e de José Yero, enquanto observa Isabella e Sonny a dançar, adivinhando entre os dois algo mais sério do que um encontro casual.
No essencial, a espontaneidade com que as relações se vão construindo à nossa frente, sem embelezamentos forçados; a intimidade mostrada sem enfeites na forma natural com que duas pessoas que se amam partilham o chuveiro. Só temos a certeza daquilo que já desconfiávamos (que Sonny e Isabella se amam) quando os vemos entrar juntos no chuveiro, tal como já havíamos visto Trubbs e Trudy.
Gostei.

A história de Pedro e Inês

A morte de Inês de Castro, Karl Briulov
(exposição temporária Rússia!, Guggenheim, Bilbao)

Em Abril estive em Bilbao e encontrei por lá este quadro, que muito me espantou, mais pelo tema do que pela sua beleza. Chama-se A morte de Inês de Castro e o mais surpreendente é ter sido pintado por um russo chamado Karl Briulov, que segundo vim a saber, foi dos primeiros pintores russos a ter fama internacional (viveu entre 1799 e 1852).
Lembrei-me disto porque ontem alguém dizia na televisão que a história de amor entre Pedro e Inês tem ainda maior potencial trágico do que a de Romeu e Julieta.
O que só prova que mais do que um herói, às vezes faz mais falta um Shakespeare.

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Il Mare




"Sung-Hyun, há três coisas que não podem ser escondidas: a tosse, a pobreza e o amor... quanto mais tentamos escondê-las, mais elas aparecem."

do filme coreano Il Mare, realizado por Hyun-Seung Lee (2000)

Domingo, Agosto 20, 2006

Craigie Horsfield na Gulbenkian


'The work I make is intimate in scale but its ambition is, uncomfortable as I find it, towards an epic dimension, to describe the history of our century, and the centuries beyond, the seething extent of the human condition."
Craigie Horsfield

Neste domingo soalheiro, fui até ao CAMJAP/Fund. Calouste Gulbenkian onde até Setembro estará patente a exposição "Relation", que reúne 35 anos de trabalho do fotógrafo inglês Craigie Horsfield.
Há nas suas fotografias um magnetismo de pintura clássica, uma aura de História e de epopeia; encontrei esse magnetismo nas poses das pessoas fotografadas, no claro-escuro das fotos a preto e branco (geralmente de grandes dimensões), na associação imediata das fotografias que compôem "Irresponsible Drawings" aos bodegons (ou naturezas-mortas) do período barroco.
De Craigie Horsfield vim a descobrir algumas coisas, entre as quais o seu interesse pelas relações que se estabelecem entre as pessoas. É, aliás, o respeito por essas relações que o leva a estabelecer estratégias prévias de aproximação (embora discretas e naturais) com os ambientes a fotografar, donde advém que tanto os objectos, como as paisagens como sobretudo as pessoas das suas fotos pareçam encerrar interioridades misteriosas e densas. Talvez por isso, assim que vi a foto acima reproduzida ( e as outras, da mesma série) vieram-me à ideia os nossos "Painéis de São Vicente", cujo grande encanto reside precisamente na carga expressiva e individualizante dos retratados.
Depois da exposição (cuja entrada aos domingos é gratuíta), fomo-nos esparramar na relva dos jardins, que estão mesmo muito bonitos, com muitos patos destemidos por ali à solta, sem medo algum das pessoas, impondo os seus grasnares, a água a afirmar-se mais no espaço, com um caudal que não me lembro de ter observado tão forte da última vez que ali estive, os cafés muito aprazíveis, sobretudo o situado no edifício do Museu, com a sua esplanada rente à relva (pena fecharem tão cedo...)

Basta Café-Jardim


Às vezes penso que a Lisboa que me é mostrada não é a Lisboa que realmente existe. Há uma Lisboa privada, uma cidade por dentro da cidade, a Lisboa dos pátios interiores. Pressinto-os nas verduras que galgam os muros, vislumbro-os entre portões mal fechados e algumas vezes mais afortunadas, tenho o prazer de os desfrutar. Foi o que me aconteceu hoje em que tive o prazer de descobrir o Basta Café Jardim, no n.º 175 da Rua Dona Estefânia.
Um livro, uma boa companhia, chá servido em louça branca Spal, torradas com manteiga e compota ... depois foi só entardecer juntamente com as árvores do pátio (algumas com troncos difíceis de abraçar), sentada na varanda em ferro estilo Arte Nova, costas voltadas para as salas de tectos altos onde o espaço deste Bar-Restaurante se prolonga. E foi um espírito do séc. XIX, um espírito romântico que se apoderou de mim nesta tarde, que me fez pousar a Brasileira de Prazins, percorrer aquelas salas forradas a madeira escura e a veludo enramalhado para soltar os dedos num piano que por ali encontrei (à porta das casas-de-banho!), eu que nem sei que nota vem a seguir ao Ré.
Vou querer voltar.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Vizinhança

(a fantástica Nina no blog da Dina)
Na minha rua vive uma senhora dos seus sessenta anos que passa o dia à janela. Arranja-se muito bem arranjada e põe-se à janela. Talvez esteja à espera de uma serenata, talvez seja apenas cusca, talvez seja apenas só. Não sei. Só sei que de manhã vou trabalhar e ela está à janela, à tarde venho do trabalho e ela está à janela, à noite chego do cinema e ela à janela ... até já estranho se não a vejo lá.
Penso que ela não deve ter muito para ver, talvez apenas uma animaçãozita de vez em quando, uma briga de namorados, o eléctrico que não passa por causa dos carros mal estacionados, uma manifestação a caminho da Assembleia da República ... pouco mais (e daí não sei, um dia ainda hei-de experimentar passar o dia à janela).
Acontece que ultimamente, eu tenho sido a animaçãozita do dia da minha vizinha, pelo menos um "pico de animação" no seu dia. Anteontem, quando vinha do trabalho, vi um cão que se parecia imenso com a cadela dos meus pais quando era mais novita. A nossa cadela chama-se Nina e na família temos uma "voz de Nina", uma entoação ridícula que utilizamos quando falamos com ela, quase como se fosse um bébé. Não resisti, o cão estava a uma distância razoável de mim e como não houvesse ninguém por perto, estive nisto uns bons longos 5 minutos: "pequena Niiina, piquenitaaa, fofiiiinha! Nina! Nina! Oooooh, fantástica Niiiiina!" Como a cadela não me ligasse nenhuma (não era a Nina, porque se fosse já estaria a abanar a cauda), resolvi ir à minha vida e conforme me viro, dou com os olhos da tal vizinha, uns olhos que não se riam, nem sequer sorriam, estavam apenas espantados a olhar para mim.
Ontem, já esquecida da cena do dia anterior, faço o meu percurso habitual, na vinda do trabalho. E de repente, tive que parar. O raio! Então não é que uma plantazeca, um género de trepadeira, que nasceu encostada a um prédio quase em frente ao meu, está enorme, verdadeiramente está do tamanho de uma árvore?! Mas como é que eu nunca reparei nisto a crescer? E devo até ter falado alto enquanto olhava e voltava a olhar a planta, de todos os ângulos, a boca aberta, a coçar a cabeça, mas que bom, algum verde no meio dos prédios, "esqueira" que não a cortem. E quando me cansei de mirar e me viro, lá estava ela, a vizinha outra vez a olhar para mim, muito espantada como quem pensa que "esta criatura passa-me aqui todos os dias à porta, mas o que é que lhe deu agora para se pôr a falar com a verdura? Tá maluquinha". Dessa vez, não consegui, tive de me esconder, perdida de riso....
Hoje (e eu tenho de escrever isto senão esqueço-me) encontrei-a na rua! Encontrei-a na rua, a andar e tudo! Não podia acreditar, tive de ficar um bom bocado a olhar, a ver se era mesmo ela. Era mesmo ela e de tal forma abismada a devo ter olhado que certamente a deixei outra vez a cismar sobre a minha maluquice.


Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Documentário sobre Lídia Jorge


No passado dia 31 de Julho, o Biography Cannel exibiu um documentário sobre a vida e obra da escritora portuguesa Lídia Jorge e durante 50 minutos fiquei colada à televisão.
Cada vez me acontece mais isto: gostar da obra de determinado escritor e detestar a pessoa de carne e osso. Tal não me aconteceu com Lídia Jorge. A figura não me desiludiu, nem pelo que disse nem pela impressão não verbal que me causou: a forma como fala, como se senta de costas direitas, rigorosa, na ponta de um sofá, como ocupa o espaço numa sala cheia de livros, como sorri enquanto fala, a justeza nos gestos, muito aprumada, a voz levemente estridente embora pausada, a impressão de minúcia na pronuncia dos erres alveolares... sinto automática empatia pelas pessoas que pronunciam os erres com a língua contra o céu da boca em vez do erre uvular (tipo escarro). E ela pronuncia o erre inicial na palavra "rigor" com a língua a vibrar no mesmo sítio onde pronunciaria o erre na palavra "trovoada", uma forma de pronunciar que infelizmente se vai perdendo (só algumas zonas mais rurais a conservam, a maioria de nós aderiu à influência francesa do rrrrrrr gutural).
Neste documentário, Lídia Jorge fala da sua infância em Boliqueime, da influência da mãe e da avó, do seu processo de escrita, do que distingue um romance enquanto obra de arte.
Descobri que escreve por verdadeiro prazer o que é cada vez mais raro ouvir de um escritor, pois para muitos, o processo de escrita é referido como uma experiência dolorosa e sofrida. Pelo contrário, Lídia Joge, quando está embrenhada num romance, diz sentir momentos de verdadeira felicidade, momentos em que atinge uma "concentração cruzeiro" tal que nem se apercebe da passagem do tempo. De cada romance que escreveu, lembra-se dos momentos essenciais da sua escrita, do que considera nevlálgico em cada livro. Não é coincidência que palavras como "fundamental", "essencial", "primordial", se repitam com alguma reiteração no seu discurso oral e escrito. São apenas a manifestação do seu espírito sintético e claro.
Dos sonhos de infância, lembra-se de pensar que, quando crescesse, gostaria de ter uma profissão que lhe permitisse transformar a sua vida numa longa tarde de Verão: uma tarde em que pudesse ler até serem horas de ir dormir.
Há ainda outra coisa que retive e que vou escrever para não me esquecer (acho que este blog deveria ter-se antes chamado Memória de Elefante-pensei isso hoje): Lídia Jorge considera que o romance se distingue enquanto obra de arte pelo facto de possibilitar um envolvimento que se prolonga no tempo. Um romance vai entrando na nossa vida interior, lenta e demoradamente, construindo-se à nossa frente, permanencendo de forma muito mais duradoira do que qualquer outra obra de arte. E isto deve-se simplesmente ao facto de demorarmos mais tempo a ler um livro do que a ver um filme ou a ver uma pintura.

Ruralidade


Percebi, ao ler este excerto d´O Vale da Paixão da Lídia Jorge porque é que regresso sempre ao sítio onde mora a minha ruralidade. Porque é que hei-de sempre rumar a Figueiró, à Pereira, à Agria.

"Ao contrário dos outros que foram e não voltaram, essa vai mas regressa, regressa sempre. Essa encontra-se presa ao pé boto de Custódio Dias, à mulher dele, às árvores dele, às galinhas desaparecidas, aos últimos ovos, às últimas portas da cancela, aos últimos melins e arreatas, está presa às últimas alfaias da casa. Não se pode salvar. Todas as cartas que vier a escrever serão sobre esses objectos mortos que jazem por terra, que estão pendurados nas paredes, que estão na rua à chuva, nos buracos luarentos dos palheiros, nas geringonças dos sarilhos dos poços, nos alcatruzes das noras, presa das mortes dos criados e das meninas que nelas se afogam, das avencas que fazem molhos verdes e se confundem com o dorso dos sapos (...) Ela está presa ao coração oculto das pedras. Ela nem vai, ela só regressa."

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Regra de Pareto ( I )

Vilfredo Pareto (só o nome!) foi um economista e engenheiro italiano e a ele deve-se uma constatação que, de tão certeira, ficou conhecida como a Regra de Pareto (ou dos 80/20).
A regra é de enorme simplicidade: 20% das famílias detêm 80% da riqueza. É esta a conclusão a que Pareto chegou. E o que tem de extraordinário é que pode ser aplicada a um sem número de realidades da vida (para o bem e para o mal):

- Será verdade que apenas 20% do que nos dizem as pessoas é responsável por 80% do que interiorizamos?
- Que 20% do que lemos num livro corresponde a 80% da nossa memória desse livro?
- Que 20% das mulheres/homens detém a atenção de 80% dos homens/mulheres?
- Que 80% dos erros que cometemos corresponde a 20% de causas?

Quando estiver à espera em filas, já sei com que me entreter: vou pensando em mais exemplos.
Promete-se uma sequela.

Terça-feira, Agosto 15, 2006

Romance & Cigarettes


Fiquei com vontade de pintar o cabelo de ruivo depois de ver este filme, Romance & Cigarettes de John Turturro.
Vive nele um verdadeiro frenesim musical, momentos em que nos sentimos entontecer como nas coreografias para as canções "Delilah" e "Piece of my Heart". Um bom roteiro de canções sobre o amor, algumas num kitsch que vai bem com o filme.
Take it
Take another little piece of my heart
now baby
Take another little piece of my heart
I know you will
Break it
Break another little piece of my
heart now baby
cause
you know you got it if it makes you feel good, so good
Este é também um bom motivo para ver James Gandolfini (conhecêmo-lo sobretudo da série Sopranos), Susan Sarandon e Christopher Walken.
Um filme com pontes em construção em pano de fundo (nos subúrbios nova-iorquinos) e aviões que rasgam o céu. O ambiente que reflecte e amplia o tema que para mim se revelou como fundamental neste filme: a luta contra a solidão.
Fica uma dúvida: Será mesmo verdade que as ruivas precisam de mais 20% de anestesia do que o resto das mulheres? "They feel more!" diz Angelo, o trabalhador metalurgico das pontes, fascinado por rabos grandes (interpretado por Steve Buscemi).

Histórias de Piratas

"Aonde queremos ir, vamos. É isso que é um navio. Não apenas quilhas, casco, convés e velas. Isso é só o que o navio precisa. Aquilo que um navio é, aquilo que o Pérola Negra realmente é, é a liberdade."
"Bring me that horizont."
do filme Piratas das Caraíbas-A Maldição do Pérola Negra, de Gore Verbinski, com Johnny Depp no magnífico Jack Sparrow.

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

Lema de Vida

"Que nos interessa o que podia ter acontecido? Se ainda tanta coisa pode acontecer..."

Luísa Costa Gomes, Contos outra vez, ed. Cotovia

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

Ler ou Reler?

Demorei algum tempo a formar uma opinão sólida sobre isto. O que é que dá mais prazer num livro que nos diz muito? A primeira leitura ou a releitura? O Abel Barros Baptista esteve no programa "Pessoal e ... Transmissível" e deixou-me mais uma vez a pensar nisto. Para ele, mais importante que ler é reler pois o desconhecido inerente à primeira leitura inquieta e inibe-nos de pensar. Um livro excelente será aquele que dá vontade de ler interminavelmente, colhendo sentidos mais profundos em cada abordagem. Na segunda leitura e seguintes, o enredo já não nos inquieta, adoptamos uma atitude mais tranquila, o que nos permite atentar nos pormenores realmente importantes.
Por mim, acho que o verdadeiro prazer só é possível na primeira leitura. Nunca esqueço uma entrevista que vi em que um Professor de Literatura Espanhola, quando questionado sobre que conselhos daria aos alunos que nunca tivessem lido o Dom Quixote responde: "Digo-lhes sempre: que sorte ... que inveja. A vida ainda tem para vos oferecer o prazer de descobrir o Dom Quixote!"
A releitura é um prazer consciente, intelectualizado, uma espécie de amor maduro. Mas a fruição alienante só é possivel no primeiro contacto com o livro e é essa impressão que nos arrebata e que perseguimos nas leituras seguintes, quase como se estivessemos a falar de droga (na verdade, alguns de nós não passam de "leiturodependentes" substituindo haxixe e heroína por livros do Eça, do Tolstoi e outros que tais). Por tudo isto, a memória de um livro pode fazer doer. Mas é essa dor nostálgica e saudosa que nos impele à releitura e nos faz querer recomeçar da página um, perseguindo, na releitura com o intelecto aquilo que a primeira leitura nos disse através do coração.

Terça-feira, Agosto 01, 2006

Teste