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segunda-feira, maio 28, 2007

77ª Feira do Livro de Lisboa

As noites têm estado molhadas, os livros nas bancadas cobertos por plásticos.
Mas há pechinchas, algumas até já as trouxe para casa.

sábado, maio 05, 2007

Os da minha rua (2007), Ondjaki

"A vida às vezes é como um jogo brincando na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente".
"Naquele tempo então o tempo passava devagar."

sábado, fevereiro 10, 2007

O Velho e o Mar

"Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamnete salao,o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro velhos sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota."
*
Ernest Hemingway, O Velho e o Mar (tradução de Jorge de Sena)

sábado, janeiro 27, 2007

Fiama Hasse Pais Brandão (1398-2007)


Este blogue qualquer dia, mais parece um obituário de poetas. Primeiro, Cesariny, agora Fiama.
Acontece que neste Natal tive a alegria de receber a Obra Breve, poesia reunida de Fiama Hasse Pais Brandão, numa grossa e bonita edição da Assírio e Alvim. Ainda não tive tempo para a desbravar, mas aqui fica um poema do qual gostei (em jeito de homenagem):
*
Anti-Poética
*
Jamais uma paisagem
pode integralmente preencher o espaço ou
+++++++++++++++++ coração real,
jamais me alimentei de fumos como esses
da outra margem, jamais me basta ver e
+++++++++++++ rever. Sobretudo
depois de percorrer a Ibéria atenta aos montes
Hermínios, as Astúrias, a esse Ebro. Quem
assim vive sabe que morrerá como quem
em consciência dispõe a ordem e a desordem
+++++++++++++++++ da sua vida.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Mário Cesariny



"ama como a estrada começa"

Lembro-me da interrogação sobre o sentido deste verso, da primeira vez que o li. Como acontece com toda a poesia, acabei por lhe encontrar um sentido íntimo embora sempre tenha mantido a curiosidade em saber o que o autor (Cesariny) tinha em mente quando o escreveu. Recentemente, num documentário que passou na TV, pude finalmente ficar a saber porque o poeta respondeu assim à tão esperada pergunta: "Não sei o que este verso quer dizer... mas quer dizer."

Esta resposta não é apenas uma pista para entender o Surrealismo. É uma pista para entender a poesia.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Mário Cesariny de Vasconcelos (Agosto de 1923 - Novembro de 2006)


"queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma."

Para ouvir (a voz de Cesariny n´Os Poetas):

quinta-feira, agosto 31, 2006

A Ideia de Europa - George Steiner


Esta coisa da identidade sempre me deu que pensar.
"Quem sou eu" é a interrogação que me acompanha desde sempre e a pergunta-de-fazer-doer-a-cabeça mais remota de que tenho memória. Outras houve como "porque é que o Gabriel tem um cão e nós não" ou mais recentemente "porque é que nunca arranjo lugar para estacionar o carro" mas o mais provável é que se vão relativizando com o passar dos anos e não subsistam como a questão da identidade, do abismo que é pensar no que me define em relação ao Outro, enquanto pessoa, enquanto portuguesa, enquanto europeia (e por aí adiante). No que respeita a este último lugar, George Steiner n´ A Ideia de Europa ajudou-me (de uma forma muito prazeirosa) a arrumar razões.
Neste pequeno ensaio, George Steiner percorre os 5 axiomas que julga poderem definir a Europa relativamente ao resto do Mundo (especialmente em relação aos EUA). Um desses axiomas é a soberania da lembrança, "as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado". Há um in memoriam constante nos espaços que habitamos, "verdadeiras câmaras de ressonância de feitos históricos". E aqui a oposição com os EUA, onde as ruas são designadas ora por números, ora por nomes de árvores, raramente referenciando o passado. Não vemos ali esta soberania da lembrança que tanto nos caracteriza, esta vontade de preservação da memória que nos leva a reconstruir cidades destruídas tal e qual como foram outrora (casos como Varsóvia, Dresden ou Dubrovnik) . Muito embora o renascimento fac-similado nunca seja a mesma coisa:
*
"Há algo de errado em toda aquela correcção. Como se mesmo as perspectivas de profundidade fossem meras fachadas. É muito difícil exprimir através de palavras a calidez, a aura que o tempo autêntico, o tempo enquanto processo vivido, confere ao jogo da luz sobre a pedra, os pátios, os telhados. No artifício do recontruído, a luz tem um travo a néon."
*

segunda-feira, agosto 28, 2006

Autobiografia

(gravura de Günter Grass; a faceta de artista plástico)
O que mais quero reter de toda esta história do Günter Grass ter andado uma vida toda a pôr a Alemanha diante do seu passado nazi e depois escrever na sua Autobiografia que quando tinha 17 anos pertenceu às SS, anda muito longe do questionamento da validade da sua obra que esta revelação veio pôr à prova.
O que quero reter é sobretudo o que Günter Grass entende que deve existir numa autobiografia para que esta se revele necessária. Diz ele, como polémico que assume ser, que quando alguém decide escrever uma autobiografia, tem obrigatoriamente de se expor, nem que seja parcialmente, porque se isto não acontecer está-se a fazer uma espécie de auto-celebração.
Digo mais um pouquinho: a "taxa de bazófia" que tanto nos caracteriza diminuiria se cada um de nós, de cada vez que falasse de si, tivesse de revelar um pouco das suas fraquezas.
(isto tudo porque me irritou um "pintas" que ouvi ainda há instantes a gabarolar-se)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Documentário sobre Lídia Jorge


No passado dia 31 de Julho, o Biography Cannel exibiu um documentário sobre a vida e obra da escritora portuguesa Lídia Jorge e durante 50 minutos fiquei colada à televisão.
Cada vez me acontece mais isto: gostar da obra de determinado escritor e detestar a pessoa de carne e osso. Tal não me aconteceu com Lídia Jorge. A figura não me desiludiu, nem pelo que disse nem pela impressão não verbal que me causou: a forma como fala, como se senta de costas direitas, rigorosa, na ponta de um sofá, como ocupa o espaço numa sala cheia de livros, como sorri enquanto fala, a justeza nos gestos, muito aprumada, a voz levemente estridente embora pausada, a impressão de minúcia na pronuncia dos erres alveolares... sinto automática empatia pelas pessoas que pronunciam os erres com a língua contra o céu da boca em vez do erre uvular (tipo escarro). E ela pronuncia o erre inicial na palavra "rigor" com a língua a vibrar no mesmo sítio onde pronunciaria o erre na palavra "trovoada", uma forma de pronunciar que infelizmente se vai perdendo (só algumas zonas mais rurais a conservam, a maioria de nós aderiu à influência francesa do rrrrrrr gutural).
Neste documentário, Lídia Jorge fala da sua infância em Boliqueime, da influência da mãe e da avó, do seu processo de escrita, do que distingue um romance enquanto obra de arte.
Descobri que escreve por verdadeiro prazer o que é cada vez mais raro ouvir de um escritor, pois para muitos, o processo de escrita é referido como uma experiência dolorosa e sofrida. Pelo contrário, Lídia Joge, quando está embrenhada num romance, diz sentir momentos de verdadeira felicidade, momentos em que atinge uma "concentração cruzeiro" tal que nem se apercebe da passagem do tempo. De cada romance que escreveu, lembra-se dos momentos essenciais da sua escrita, do que considera nevlálgico em cada livro. Não é coincidência que palavras como "fundamental", "essencial", "primordial", se repitam com alguma reiteração no seu discurso oral e escrito. São apenas a manifestação do seu espírito sintético e claro.
Dos sonhos de infância, lembra-se de pensar que, quando crescesse, gostaria de ter uma profissão que lhe permitisse transformar a sua vida numa longa tarde de Verão: uma tarde em que pudesse ler até serem horas de ir dormir.
Há ainda outra coisa que retive e que vou escrever para não me esquecer (acho que este blog deveria ter-se antes chamado Memória de Elefante-pensei isso hoje): Lídia Jorge considera que o romance se distingue enquanto obra de arte pelo facto de possibilitar um envolvimento que se prolonga no tempo. Um romance vai entrando na nossa vida interior, lenta e demoradamente, construindo-se à nossa frente, permanencendo de forma muito mais duradoira do que qualquer outra obra de arte. E isto deve-se simplesmente ao facto de demorarmos mais tempo a ler um livro do que a ver um filme ou a ver uma pintura.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Lema de Vida

"Que nos interessa o que podia ter acontecido? Se ainda tanta coisa pode acontecer..."

Luísa Costa Gomes, Contos outra vez, ed. Cotovia